A região da Kurfürstenstraße, em Berlim, voltou a ser notícia por um motivo que também remete diretamente à história de Christiane F. Uma escola localizada próxima à famosa rua decidiu construir uma cerca para impedir o acesso noturno de profissionais do sexo e clientes ao seu pátio.
Pais, alunos e professores da Französisches Gymnasium reclamavam há algum tempo da movimentação durante a noite. A escola fica em uma rua perpendicular à Kurfürstenstraße, uma das áreas mais conhecidas de prostituição de Berlim.
Depois que anoitece, o pátio da instituição vinha sendo utilizado por profissionais do sexo e seus clientes, transformando o local em uma espécie de motel improvisado a céu aberto.
A situação também deixava vestígios no dia seguinte. Segundo relatos publicados pela imprensa local, alunos e funcionários encontravam frequentemente preservativos e seringas usadas no terreno da escola. Também havia relatos de profissionais do sexo circulando pelo espaço durante o dia.
Uma cerca de 125 metros
A solução encontrada foi a construção de uma cerca com aproximadamente 1,8 metro de altura e 125 metros de extensão, contornando a área da escola.
Para pais e alunos, o anúncio da obra foi recebido como um alívio. A expectativa era que a barreira ajudasse a impedir as invasões durante a noite e devolvesse o espaço escolar aos seus alunos e funcionários.
Segundo a imprensa local, a construção poderia custar até 57 mil euros aos cofres públicos. A proteção, entretanto, não seria imediata: a previsão era de que a cerca ficasse pronta apenas no final daquele ano.
A Kurfürstenstraße já havia sido cercada
A escola não foi o primeiro espaço da região a recorrer a esse tipo de solução.
No ano anterior, uma praça com um parquinho infantil localizada a poucas quadras da Kurfürstenstraße também havia recebido uma cerca pelo mesmo motivo. O local passou a ser fechado durante a noite.
A medida mostra como a atividade de prostituição na região acabou ultrapassando os limites da própria rua e afetando espaços públicos e instituições localizadas nas proximidades.
A famosa Kurfürstenstraße
Com aproximadamente 1,6 quilômetro de extensão, a Kurfürstenstraße liga a movimentada Potsdamer Straße à região da estação Zoologischer Garten e há décadas é conhecida como um dos principais pontos de prostituição de Berlim.
A quantidade de mulheres que trabalham nas ruas varia de acordo com a época do ano e o horário, mas estimativas citadas pela imprensa apontavam para algo entre 200 e 400 profissionais do sexo ao longo da via.
A região, entretanto, possui uma história que vai muito além da prostituição. Para quem conhece a trajetória de Christiane F., o nome Kurfürstenstraße imediatamente remete à Berlim Ocidental dos anos 1970.
Kurfürstenstraße e Christiane F.
A Kurfürstenstraße ficou conhecida internacionalmente depois que a história de Christiane F. foi publicada, em 1978, no livro Wir Kinder vom Bahnhof Zoo, escrito a partir dos relatos da adolescente e posteriormente publicado no Brasil como Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída.
Durante a adolescência, Christiane passou a se prostituir na região para conseguir dinheiro para sustentar sua dependência de heroína. A Kurfürstenstraße aparece, portanto, como um dos lugares fundamentais de sua história.
A rua fazia parte do mesmo universo noturno que envolvia a Bahnhof Zoo, a discoteca Sound, o Gropiusstadt e os demais lugares frequentados por Christiane e seus amigos durante os anos 1970.
Décadas depois, a Kurfürstenstraße continua sendo associada à prostituição e às dificuldades sociais que sempre fizeram parte da história daquela região de Berlim.
É curioso observar como um lugar tão importante na história de Christiane F. continuou fazendo parte da vida noturna de Berlim por tantos anos — ainda que, desta vez, a notícia fosse sobre uma escola tentando impedir que a atividade chegasse ao seu pátio.
Fonte: DW Brasil






