Em 01 de Janeiro de 1978, a Revista Der Spiegel citou a morte de Babsi, amiga de Christiane F. em uma matéria sobre a epidemia de vício em drogas pesadas em Berlim. A matéria ressalta que este tipo de substância era mais consumida entre crianças e adolescentes do que entre jovens mais velhos e universitários, e que o número de overdoses fatais era preocupante. Confira o artigo abaixo:
DROGAS: A capital dos viciados em heroína
Em nenhuma grande cidade europeia a taxa de mortalidade por drogas, medida pelo número de dependentes, é tão alta quanto em Berlim Ocidental. Mesmo na fortaleza das drogas nos EUA, Nova York, ela é mais baixa.01/01/1978, 13h00 • da DER SPIEGEL 1/1978
Babette Döge, 14 anos, cravou a minúscula cânula de morfina, calibre 18, na mão esquerda. Quando a encontraram, as pontas dos dedos estavam, segundo o laudo, "ligeiramente ressecadas", e a base das unhas, arroxeada. A seringa descartável ainda estava presa na veia.
Sete vezes seguidas, o estudante Ingo Hillmer, 15 anos, tão viciado em drogas quanto a jovem, aplicou uma dose de heroína nas veias cicatrizadas. Nenhum dos dois sobreviveu à tortura.
Babette, no vício da agulha há meio ano, tinha injetado uma overdose que seu organismo fragilizado não pôde suportar. O garoto pálido de cabelos na altura dos ombros tinha, na gíria dos viciados, dado intencionalmente o "tiro de ouro" — a última aplicação, sem retorno.
"Eu sei, mãe", foram suas palavras de despedida, "você quer me ajudar, mas ninguém mais pode me ajudar."
Assim como não foi possível ajudar as duas vítimas de drogas mais jovens deste ano em Berlim, ninguém pôde ajudar os outros. Até meados da semana passada, já eram 84 os dependentes de drogas que morreram de forma semelhante desde janeiro — um aumento de 30 em relação a 1976, quase o mesmo número de todas as mortes registradas entre 1971 e 1975 somadas.
E há tempos as listas vêm sendo feitas: o desempregado Günther Hackbarth, 27, que nem a terapia da controversa associação Narconon nem a Caritas conseguiram afastar do veneno — vítima nº 37; Sabine Virkus, 17, filha de um comerciante de ferragens, que restaurava molduras para um mercado de pulgas — vítima nº 51; a garçonete Manuela Stanke, 23, que caiu silenciosamente do banco em um cinema erótico — vítima nº 57; o DJ Jens Karlin, 25, encontrado sem vida pela equipe de limpeza urbana no banheiro feminino — vítima nº 65.
Na cena das drogas, sufocando a comoção, diz-se então que eles "bateram as botas", "deram o fora", "zeraram o marcador". E para muitos, como bem desconfiam, esse é o seu próprio prognóstico. Cientistas projetaram que os dependentes de Berlim têm uma expectativa de vida vinte vezes menor em comparação com jovens da mesma idade não viciados. A morte programada dos marginalizados transformou a antiga metrópole na "capital dos dependentes" (Die Zeit). Em nenhuma grande cidade europeia a taxa de mortalidade, proporcional ao número de dependentes em risco, é tão constante e elevada.
Mesmo Nova York, o bastião das drogas com 49.000 viciados, fica para trás. Lá, conforme estimativas do especialista em drogas e médico legista de Berlim, Professor Friedrich Bschor, morrem em média de seis a sete em cada 1.000 dependentes por ano; em Berlim, são mais de 20. A "mortalidade relativa" dos dependentes químicos na cidade atingiu, segundo Bschor, um pico que não encontra paralelo na "literatura científica internacional".
Atualmente, o fenômeno berlinense está sendo analisado cientificamente. O doutorando em medicina Sigurd Junge, da equipe de Bschor, analisa os 88 casos de anos anteriores até 1975. Ele investiga as "trajetórias no vício", as etapas das vítimas nessa rua de mão única da dependência. Compara a estrutura social das vítimas e questiona a quem as relações familiares destruídas facilitaram a queda na subcultura: como esperado, à grande maioria. Bons contatos com os pais só puderam ser reconstruídos, com muito custo, em um a cada dez casos.
Primeiros resultados do grupo liderado pelo cientista Bschor:
- Em um terço dos casos, foi possível comprovar suicídio premeditado. Movidas por um aparente beco sem saída, as vítimas aplicavam o "tiro de ouro", misturavam drogas e psicotrópicos ou saltavam da janela em direção ao abismo — o que ocorreu em pelo menos oito casos, predominantemente após o consumo de LSD, a droga da moda na época.
- Quase um terço das vítimas vinha de fora da cidade apenas para suprir suas necessidades de consumo. Pouco tempo depois, eram encontradas — às vezes "em estado de torpor", às vezes "em estado de decomposição adiantada" (segundo o relatório policial), em comunas de viciados ou no andar superior de um ônibus da linha 62.
Antigos viciados em risco de recaída que passaram por curtos períodos de desintoxicação (no jargão: Stolper-Clean) também correm risco de morte iminente, segundo o levantamento de Junge. O corpo desintoxicado não tolera mais as doses antigas, resultando frequentemente em overdose de opiáceos. Assim, cinco das 88 vítimas morreram logo após receber alta da desintoxicação clínica, quatro após fugirem de instituições fechadas de volta para a cena, e seis logo após saírem da prisão ou durante uma saída temporária.
Os dependentes também estão expostos a acasos perigosos devido às peculiaridades do mercado de drogas. O produto misturado por grandes negociantes ou pequenos traficantes (na gíria: "as formigas") e batizado com glicose, ácido ascórbico, lactose ou até mesmo, como se suspeita, estricnina para maximizar os lucros tem uma pureza completamente imprevisível. Amostras recentes de heroína em Berlim revelaram concentrações que variavam entre 15% e 50% — uma diferença fatal até para os viciados mais experientes, o que provavelmente aconteceu: quando sete dependentes morreram na mesma semana durante o inverno, a polícia criminal de Berlim atribuiu o fato principalmente à variação do grau de pureza da mercadoria colocada em circulação.
O fato de o mercado negro de drogas de Berlim ser atrativo não apenas para os moradores locais, apesar de tanta incerteza, deve-se à sua grande fartura. Comparado a Frankfurt, Munique, Hamburgo ou às filiais em pequenas cidades do sul da Alemanha, ele ocupa uma "posição de destaque", segundo especialistas da Polícia Federal Criminal (BKA).
Diversas operações policiais comprovaram isso: quando havia escassez em outros lugares ou quando a mercadoria era reduzida artificialmente para inflacionar os preços, em Berlim ainda havia oferta. O preço cobrado pelos traficantes por um grama de heroína atualmente, suficiente para dez a vinte aplicações, varia entre 220 e 250 marcos.
Desde que a Polícia Criminal constatou que quase 80% das drogas pesadas vêm do Oriente Médio, os especialistas preveem uma expansão ainda maior: a consolidação de um centro de distribuição internacional de drogas. A polícia teme que se encontrem mulas em número suficiente entre os 75.000 trabalhadores imigrantes turcos e, ainda mais, entre os cerca de 5.000 compatriotas que vivem ilegalmente na cidade.
Para quem entra na cidade, não existe apenas a rota conhecida do aeroporto central da Alemanha Oriental, Schönefeld, via trem urbano (S-Bahn) e metrô (U-Bahn). Até o tráfego de voos charter em Tegel tem dado dor de cabeça à fiscalização alfandegária. O diretor do setor em Berlim, o conselheiro governamental Joachim Frank, afirma: "Veja só como, de três aviões, desembarcam 500 turcos com sacos e caixas, recebidos por 3.000 compatriotas."
A própria homogeneidade da cena consumidora de Berlim — presente até nos estabelecimentos prisionais, onde, segundo estimativas não oficiais elevadas, pelo menos 15% dos detentos são viciados — favorece esse cenário. Os mandantes do tráfico continuam desconhecidos; apenas os pequenos distribuidores são capturados. Seja no "corredor do tráfico" (entre a Tauentzienstrasse, a Igreja Memorial e o Café Kranzler, no lado direito da Ku'damm), seja nas estações de metrô de Gropiusstadt, na região do Lehniner Platz ou em áreas verdes como o Jahnpark, bem ao lado do monumento ao venerável pai da ginástica — os investigadores de narcóticos de Berlim ainda não conseguiram dar o grande golpe.
Os 1.600 infratores registrados apenas na Polícia Criminal, que caem na malha fina a cada um ano e meio em média, garantem tribunais lotados. No entanto, isso quase não contribuiu para diminuir a oferta de drogas.
Além disso, a estrutura da cena mudou radicalmente nos últimos anos: a vanguarda acadêmica da cannabis foi sucedida por imitadores proletários, mas com substâncias mais pesadas. A maior parte dos estudantes secundaristas e universitários que, desde meados dos anos 1960, associavam suas experiências arriscadas com tragadas de maconha a um protesto difuso contra o mundo hostil ("estar chapado, ser livre, o terror tem que fazer parte") não fez a transição para as drogas pesadas. Esse espaço foi ocupado por alunos do ensino fundamental, operários e desempregados.
Na lista de mortos dos anos de 1971 a 1975, revelou o estudo de Junge, constam os nomes de apenas cinco estudantes universitários ativos, enquanto há 17 jovens operários. Do depoimento de "Schrippe", decorador de profissão e uma das primeiras vítimas das drogas em Berlim: "Meus pais são separados e, claro, a merda da minha mãe fez bobagem de novo. Ligou aqui para Berlim dizendo que tinha ouvido falar das injeções. Fez um teatro, é claro. Eu disse que só tinha tomado comprimidos de Dicandit, que isso era inofensivo, coisa de criança."
Em 1970, ele e um amigo saquearam o armário de remédios controlados de uma farmácia. O perito do tribunal elogiou seu "estado psíquico no momento equilibrado", e o juiz suspendeu a pena sob custódia probatória — mediante a promes a de que ele permaneceria longe das drogas. Dois dias depois, ele morreu após uma aplicação.
Seu amigo, apelidado de "Typ", declarou após dar entrada no hospital: "Eu dei a picada nele. Todos nós tomamos uma dose. No começo, ficamos conversando sobre como a droga era boa. De repente, ele ficou em pé na porta e caiu duro no chão."
Frequentemente, os rumos no caminho para as drogas são traçados ainda na infância. Helmut, por exemplo, teve seu primeiro registro policial aos 12 anos. O marinheiro de uma embarcação fluvial o denunciou por ter jogado na água os cabos de amarração do seu barco a motor. Nove dias depois, uma funcionária do Conselho Tutelar registrou as queixas da mãe ("ela só tem desgosto com ele") e abriu um processo: "Início do acompanhamento". O boletim escolar do mesmo ano acrescentou novos fatos: "Devido à desobediência e falta de veracidade, precisou ser repreendido com severidade com frequência." Quatro anos depois, os pais se divorciaram. Os peritos oficiais anotaram então: "Forte automatismo de marginalização". Dois contratos de aprendizagem foram interrompidos.
Nessa época, ele entrou em contato com as drogas e surgiram as primeiras condenações. A última carta para a mãe ("Por favor, não pense que eu fui sempre mau, lembre-se também das coisas boas") ele escreveu da prisão: "Quando fui preso, tinha tomado mais de 20 'trips', e acho que algo deve ter pifado no meu cérebro. Vejo bichos rastejando o tempo todo e, quando tento pegar, eles somem, ou vejo algo se mexendo quando está parado." Ele já tinha acumulado cinco tentativas de suicídio quando, finalmente libertado de novo, tomou a dose fatal.
E, assim como Helmut, quase metade dos afetados tem no histórico tentativas de desintoxicação — em casa, na prisão ou em um dos diversos centros de apoio e clínicas especializadas de Berlim Ocidental. O dependente Hackbarth, por exemplo, consultou o diretor do centro de apoio da Caritas, Berndt-Georg Thamm, cerca de 60 vezes — no fim das contas, sem sucesso.
Cinco semanas antes de sua morte por overdose, um psiquiatra deu o seguinte parecer sobre a viciada berlinense Ariane: "Existem indícios de boa vontade, mas ela está socialmente destruída." E sua agente de liberdade condicional, que conseguiu para a livreira de formação um emprego em uma livraria ("Os primeiros clientes eram traficantes") e uma internação em uma clínica psiquiátrica de Berlim Ocidental ("Bormies Ranch"), declarou: "Tivemos que assistir impotentes à sua decadência."
De qualquer forma, a ajuda pública, com ou sem sucesso, é escassa. É verdade que a Secretaria de Saúde de Berlim deve liberar 8,6 milhões de marcos em um programa de emergência para criar novos cargos e expandir clínicas e centros de apoio especializados. Porém, o experiente especialista em drogas Thamm sabe que um "certo tributo em sangue" continuará sendo cobrado.
Os novos e jovens integrantes da cena, os viciados adolescentes registrados apenas em 56 escolas de Berlim — eles são, diz Thamm, "os mortos pelas drogas dos anos oitenta".
Fonte: Der Spiegel
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