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18/09/2026

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Christiane F., o filme: atriz Natja Brunckhorst revela os bastidores

Atriz Natja Brunckhorst

Quando Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída chegou aos cinemas, em 1981, ninguém poderia imaginar que aquela adolescente escolhida quase por acaso para interpretar Christiane F. continuaria sendo lembrada pelo papel décadas depois.

Ao contrário do que vemos hoje em dia, com adultos completamente barbados interpretando personagens adolescentes (o que pode acabar comprometendo a nossa capacidade de "comprar" aquela história e acreditar nela), Natja Brunckhorst tinha apenas 13 anos quando foi escolhida para interpretar a protagonista da mesma idade. Ela nunca havia atuado profissionalmente e, como fez questão de explicar em entrevistas ao longo dos anos, nunca havia usado drogas.

Muito tempo depois, a atriz relembrou diversos episódios das filmagens e contou como foi participar de um filme que acabou se tornando um dos retratos mais conhecidos da juventude marginalizada de Berlim Ocidental nos anos 1970.



Como Natja Brunckhorst conseguiu o papel


A escolha de Natja começou de maneira bastante casual. A equipe de Uli Edel foi até sua escola procurando meninas para o filme. Ela estava sentada no pátio, comendo uma maçã, quando foi abordada por uma mulher que perguntou se gostaria de fazer um teste.

Natja aceitou. No teste, oito garotas foram maquiadas e caracterizadas como jovens dependentes de drogas. A câmera passou de uma para outra, até chegar a Natja.

Anos mais tarde, Bernd Eichinger, produtor do filme, contou a ela que sua aparição no teste havia provocado uma reação imediata na sala de exibição. Natja parecia muito jovem, era tímida e tinha uma voz baixa, mas havia alguma coisa em sua presença que chamou a atenção da equipe.

Ela inicialmente havia sido considerada para interpretar a irmã de Christiane F., mas acabou recebendo o papel principal.

O pai de Natja permitiu que ela participasse das filmagens. Na época, ninguém imaginava que aquele trabalho teria consequências tão grandes para a vida da menina.

Abaixo, uma imagem de Natja bem jovenzinha no teste para o personagem de Christiane F.

Natja Brunckhorst em 1980


“Eu nunca tinha usado drogas”


Uma das coisas que Natja mais fez questão de esclarecer ao longo dos anos foi que ela não tinha experiência pessoal com drogas quando começou a trabalhar no filme.

Antes das filmagens, ela havia visto uma pessoa dependente de drogas apenas uma vez. Também leu o livro de Christiane F. por iniciativa própria, independentemente da preparação para o papel, afinal o livro ficou muito famoso na Alemanha na época.

Mesmo assim, algumas pessoas passaram a acreditar que a atriz conhecia pessoalmente aquele universo e chegaram a tratá-la como uma espécie de especialista em drogas durante entrevistas e programas de televisão.

Natja sempre considerou isso absurdo. Ela estava interpretando uma personagem e não vivendo aquela história.

Atriz Natja Brunckhorst


Os truques usados nas cenas de drogas


Como Natja não tinha experiência com drogas, a equipe precisou encontrar maneiras de reproduzir na tela a aparência de uma pessoa intoxicada ou em abstinência.

Um dos truques utilizados era colocar gotas nos olhos da atriz para alterar a aparência de suas pupilas. Em determinadas cenas, os olhos deveriam parecer mais abertos ou mais fechados, dependendo do estado de Christiane.

Para representar a abstinência, Uli Edel simplesmente dava instruções para que Natja imaginasse estar extremamente doente, como se estivesse com uma gripe muito forte ou sofrendo com fortes dores e cólicas.

Natja conta que não ficava tentando reproduzir conscientemente aquilo que uma pessoa dependente de drogas faria. Ela simplesmente confiava nas orientações do diretor e atuava.

Natja Brunckhorst como Cristiane F.


O medo de seringas e as cenas de injeção


Natja também tinha um medo enorme de seringas — algo que, segundo ela, continua até hoje.

Para algumas tomadas mais distantes, o maquiador encontrou uma solução engenhosa. A ponta da agulha era cortada e lixada, e uma pequena mangueira era colocada atrás da seringa para criar a ilusão de que alguma coisa estava sendo injetada ou retirada.

Quando a câmera estava muito próxima e a agulha precisava aparecer claramente, entretanto, algumas dessas cenas foram realizadas por um dublê. Em uma delas, o dublê era o próprio irmão de Natja, que recebeu 50 marcos por cada “agulhada”.

A cena do vômito também foi feita com efeitos simples. Natja contou que uma mangueira foi colocada em sua mão e vinho foi utilizado para criar o efeito. Depois que o líquido entrou em seu nariz, ela decidiu que não queria repetir a experiência.

A cena do vômito em Christiane F.


O dia em que Natja quase entrou no carro de um homem de verdade


Foi durante uma das filmagens na Kurfürstenstraße que Natja percebeu, pela primeira vez, que a realidade retratada pelo filme estava muito mais próxima dela do que imaginava.

A cena mostrava Christiane esperando um carro para entrar nele. Como a sequência seria filmada com uma lente de longa distância, a equipe permanecia bem afastada da atriz.

Um carro realmente parou. Natja se aproximou e estava prestes a entrar quando percebeu, pelo canto do olho, integrantes da equipe correndo em sua direção e gritando para que ela parasse.

O homem dentro do carro não era um ator. Era um cliente que realmente procurava uma menina para prostituição.

Natja quase entrou no veículo antes que a equipe conseguisse interromper a situação.

Segundo ela, aquele foi o único momento durante toda a produção em que percebeu de maneira tão direta que aquilo que o filme estava mostrando não era apenas ficção.

Foi quando entendeu: aquilo realmente existia e estava acontecendo ao seu redor.



As filmagens clandestinas na Bahnhof Zoo


A equipe também enfrentou dificuldades para filmar dentro da estação Bahnhof Zoo. Como não havia autorização para realizar as filmagens naquele local, algumas cenas precisaram ser feitas de maneira praticamente clandestina.

Uli Edel contou que o diretor de fotografia se sentava em uma cadeira de rodas com a câmera escondida em uma caixa sobre o colo. Um visor estendido permitia que ele enxergasse o que estava filmando enquanto alguém empurrava a cadeira pela estação.

A equipe acompanhava Natja enquanto ela circulava pelo local, tentando registrar as imagens com a aparência espontânea de um documentário.

A estratégia funcionou apenas uma vez. Algumas das imagens acabaram ficando fora de foco, mas justamente esse aspecto contribuiu para a aparência documental do filme.



Uli Edel queria que o filme parecesse um documentário


No início das filmagens, os jovens atores tinham dificuldades para acompanhar as marcações de luz, seguir os movimentos da câmera e atuar diante dos equipamentos.

Como quase nenhum deles tinha experiência anterior, Uli Edel decidiu mudar completamente a maneira de filmar.

Ele contratou um novo diretor de fotografia vindo do cinema documental e pediu que a câmera simplesmente acompanhasse os jovens, sem obrigá-los a se movimentar de maneira rígida ou artificial.

A partir daí, o filme ganhou um estilo muito mais próximo de uma reportagem ou de um registro documental. A iluminação ficou mais simples e algumas imagens perderam a nitidez, mas os jovens passaram a atuar com muito mais liberdade.

Foi uma escolha que ajudou a construir justamente uma das características mais marcantes de Christiane F.: a sensação de que estamos observando pessoas reais em vez de atores interpretando uma história.

Natja Brunckhorst como Cristiane F. na Estação Zoo de Berlim


Um saco de heroína foi encontrado durante as filmagens


Uma das histórias mais absurdas contadas por Uli Edel aconteceu durante uma gravação em um banheiro público.

Enquanto filmava Natja de cima de uma escada, o diretor percebeu que havia um grande saco de heroína escondido em um vão na parede.

Naquele momento, a produção estava enfrentando dificuldades financeiras e Bernd Eichinger havia acabado de comentar que não sabia como conseguiria pagar os últimos dias de filmagem.

Edel brincou que poderiam vender a droga para financiar mais alguns dias de produção.

Pouco depois, um homem de aparência bastante perturbada entrou no banheiro. Para evitar que ele chegasse perto de Natja, o diretor jogou o saco em sua direção. O homem pegou a droga e foi embora.

E a equipe simplesmente continuou filmando.



Os banheiros eram realmente imundos?


As cenas dos banheiros também foram gravadas em locais reais. Natja contou que chegou a filmar em oito banheiros diferentes.

Antes das gravações, o cenógrafo limpava os locais para que a equipe pudesse trabalhar. Depois, eles eram novamente sujos para criar a aparência degradada que vemos no filme.

E havia um truque bastante simples para isso: chocolate era usado para simular sujeira.

A produção conseguia, assim, filmar em locais reais sem precisar deixar a equipe trabalhando em condições completamente insalubres.

Natja Brunckhorst como Cristiane F. no banheiro público


As cenas de sexo eram mais constrangedoras para os adultos


Apesar de ter apenas 13 anos, Natja cresceu em uma comunidade alternativa em Berlim, onde assuntos relacionados a sexo eram discutidos com bastante naturalidade.

As cenas do filme, entretanto, apresentavam uma situação completamente diferente.

Ela contou que, quando chegava a hora de filmar cenas íntimas, toda a equipe desaparecia do set de repente, deixando apenas as pessoas necessárias para a gravação.

Para Natja, o constrangimento dos adultos ao redor era muitas vezes mais estranho do que a própria cena.

Em uma ocasião, Uli Edel disse que iriam filmar uma cena de coito. Natja chegou a pensar que “coito” poderia ser alguma gíria regional que ela desconhecia.



A cena com David Bowie foi filmada em Nova York


Uma das participações mais famosas do filme também teve uma história curiosa nos bastidores.

David Bowie estava em Nova York, onde participava da produção de The Elephant Man, na Broadway. Por isso, a equipe de Christiane F. viajou até os Estados Unidos para filmar a sequência do concerto.

As gravações aconteceram em dezembro de 1980. Na mesma manhã, John Lennon foi assassinado em Nova York, a poucos quarteirões do local onde a equipe estava trabalhando.

Bowie chegou a avisar que não participaria das filmagens naquele dia. A equipe, porém, conseguiu convencê-lo a realizar a sequência rapidamente.

A participação de Bowie acabou se tornando uma das imagens mais memoráveis do filme.

Natja Brunkhorst e David Bowie no filme Christiane F.


Natja Brunckhorst encontrou Christiane F.


Apesar de interpretar Christiane F. no cinema, Natja não teve uma convivência próxima com a verdadeira Christiane durante a produção.

As duas só se encontraram pessoalmente anos depois.

O encontro aconteceu quando Natja já tinha 16 anos e Christiane estava tocando em uma banda em um clube punk de Berlim. Elas foram apresentadas e trocaram algumas palavras.

Em outra ocasião, Natja também contou que encontrou Christiane durante um show. As duas praticamente não conseguiram conversar porque a música estava muito alta.

Ainda assim, Natja demonstra gratidão pela mulher que interpretou no cinema. Segundo ela, a história de Christiane mudou completamente sua própria trajetória profissional.

Depois de atuar no filme, Natja estudou em um colégio interno em Londres e mais tarde se mudou para Paris. Com o passar dos anos, tornou-se diretora e roteirista, trabalhando no cinema durante décadas.

E mesmo tantos anos depois, ela continua sendo reconhecida nas ruas como “aquela garota” de Christiane F..

Atriz Natja Brunckhorst


“Eu estava atuando”


Talvez uma das maiores ironias da trajetória de Natja Brunckhorst seja justamente o fato de muitas pessoas terem confundido a atriz com a personagem.

Durante anos, ela ouviu comentários de pessoas que presumiam que ela havia vivido aquela história de drogas e prostituição na vida real.

Natja sempre fez questão de explicar que não era assim.

Ela era uma menina de 13 anos interpretando uma personagem.

O que tornou sua atuação tão convincente não foi uma experiência pessoal com drogas, mas justamente sua capacidade de confiar no diretor, observar o que acontecia ao seu redor e entrar naquele personagem.

Décadas depois, Natja Brunckhorst deixou para trás a imagem daquela adolescente de Berlim e construiu uma carreira própria no cinema. Mas, para milhões de pessoas, ela continua sendo inseparável de Christiane F.

E talvez isso seja uma das maiores provas do impacto que aquele filme de 1981 teve.

Fonte: Rolling Stone | The Guardian | O Povo

Leia outras entrevistas:
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14/09/2026

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Christiane F.: curiosidades sobre o filme de 1981

Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída... é um daqueles filmes que parecem ter sido feitos com uma preocupação quase documental. Filmado em locações reais de Berlim e contando com a participação de David Bowie, o longa dirigido por Uli Edel acabou se tornando uma das obras mais conhecidas sobre a juventude e o consumo de drogas na Berlim Ocidental dos anos 1970.

Mas existem muitos detalhes sobre a produção que passam despercebidos durante o filme.
Christiane F. olha cartaz de David Bowie




Alguns figurantes eram pessoas que realmente viviam nas ruas


As cenas da Sound, da Bahnhof Zoo e de outros locais movimentados precisavam de muitas pessoas para criar a atmosfera da Berlim daquela época.

Segundo informações reunidas sobre a produção, vários dos figurantes e participantes que aparecem ao fundo nessas sequências eram jovens que realmente viviam naquele ambiente, incluindo pessoas envolvidas com drogas e prostituição.

A escolha ajudava a dar às cenas uma aparência muito mais natural. Em vez de todos os personagens secundários parecerem atores interpretando um determinado tipo de pessoa, muitos daqueles rostos pertenciam a pessoas que conheciam de perto aquele universo.

Isso também ajuda a explicar por que algumas cenas do filme têm uma aparência tão próxima de um registro documental.

Inclusive, Catherine Schabeck, a amiga de Christiane F. vida real que no livro ela chama de Stella, faz uma ponta no filme como uma traficante que vende heroína a Detlev. Logo abaixo tem imagens dela no filme!
Catherine Schabeck no filme Christiane F.
Catherine Schabeck no filme Christiane F.




O nome de Detlev


No livro e na vida real, o namorado de Christiane F. Se chamava Detlef, com um "f" no final. Porém no filme, o personagem se chama Detlev, com um v. Dizem por aí que isso é porque ele não gostou muito da publicação da história... mas a versão oficial é que "Detlef" e "Detlev" são simplesmente duas variantes ortográficas diferentes do mesmo nome. Em alemão, nomes terminados em um som consonantal suave podem alternar a grafia final entre "-f" e "-v" sem alterar a pronúncia ou o significado.
Detlef no filme Christiane F




Natja Brunckhorst quase entrou em um carro com um homem de verdade


Essa talvez seja uma das histórias mais impressionantes das filmagens.

Em uma entrevista, Natja Brunckhorst, que interpretou Christiane F., contou uma situação que aconteceu durante a gravação de uma cena na Kurfürstenstraße, região associada à prostituição de rua em Berlim.

Na sequência, Christiane aparece sozinha esperando alguém buscá-la. Como a cena foi filmada com uma lente longa, a equipe de câmera estava bastante distante da atriz.

Um carro se aproximou e Natja começou a se preparar para entrar.

Foi então que ela percebeu, pelo canto do olho, membros da equipe correndo em sua direção e gritando para que ela não entrasse.

O motivo?

O motorista não era um ator!!!

Ele aparentemente havia achado que a atriz era uma prostituta de verdade e estava tentando abordá-la.

Natja tinha apenas 13 anos na época. Mais tarde, Natja Brunckhorst observou em entrevistas que aquele momento aterrorizante foi seu primeiro confronto real e não roteirizado com as realidades sombrias da personagem que ela interpretava.

A situação mostra de maneira bastante perturbadora o quanto as filmagens se misturavam com a realidade das ruas de Berlim naquele período.
Christiane F., o filme




A cena de David Bowie foi filmada em Nova York


David Bowie aparece no filme durante a sequência de seu concerto, mas existe uma curiosidade: a apresentação não foi filmada em Berlim.

As cenas do show foram gravadas em outubro de 1980, no Hurrah Club, em Nova York.

Naquele momento, Bowie estava trabalhando na Broadway e se apresentava várias noites por semana. Por isso, Uli Edel precisou aproveitar sua passagem pela cidade para filmar as cenas.

O interior do clube foi preparado para parecer uma casa noturna de Berlim.

E há outro truque interessante: parte das imagens da enorme multidão que aparece no filme foi aproveitada de imagens de um show do AC/DC realizado na então Alemanha Ocidental.

Ou seja, aquela sequência aparentemente filmada como um único concerto é, na realidade, resultado de diferentes elementos reunidos na montagem.
David Bowie no filme Christiane F.




A relação de Christiane F. com David Bowie era ainda mais importante


Bowie não está no filme simplesmente porque sua música combinava com a atmosfera da história. A presença do cantor tinha uma relação direta com a própria história de Christiane F.

O filme utiliza várias músicas de Bowie e o cantor aparece em uma sequência de concerto. A participação ajudou inclusive a aumentar a visibilidade do longa.

Existe ainda um detalhe particularmente importante: segundo o livro que deu origem ao filme, Christiane teve seu primeiro contato com heroína depois de assistir a um show de David Bowie.

Esse acontecimento acabou sendo incorporado à narrativa cinematográfica.

Por isso, Bowie funciona no filme quase como uma ponte entre dois mundos: de um lado, o universo da música e da juventude de Berlim; de outro, a trajetória cada vez mais destrutiva de Christiane e seus amigos.
Natja Brunkhorst e David Bowie no filme Christiane F.




Babsi realmente morreu aos 14 anos


Babsi, uma das amigas mais próximas de Christiane no filme, não é apenas uma personagem inventada para a história.

A jovem retratada no livro e no filme realmente existiu, era amiga de Christiane F. e morreu em 1977, aos 14 anos, vítima do consumo de drogas. Seu nome era Babette Tatjana Döge (1963 – 1977).

A morte da adolescente chamou a atenção da imprensa alemã. O jornal Berliner Zeitung publicou uma reportagem de capa sobre o caso, apresentando Babsi como a mais jovem vítima das drogas em Berlim.

A morte de Babsi, juntamente com a posterior publicação de Wir Kinder vom Bahnhof Zoo, contribuiu para chamar a atenção pública para o problema do consumo de drogas entre adolescentes.

É um dos motivos pelos quais a história de Christiane F. acabou ultrapassando o âmbito de uma autobiografia e se transformou em um retrato de uma geração.

Logo abaixo, Christiane F. e Babsi no filme:
Natja Brunkhorst e Christiane Reichelt no filme Christiane F.


Babsi da vida real:
Babsi da vida real




O filme tem alguns pequenos erros de continuidade


Mesmo sendo um filme extremamente cuidadoso em sua ambientação, algumas pequenas falhas podem ser encontradas.

Uma delas acontece na Bahnhof Zoo (Estação Zoo do metrô de Berlim).

Depois que Christiane encontra dois amigos dentro da estação, os três saem à procura de Detlev. Um dos amigos, Axel, aparece usando uma calça jeans clara e larga dentro da estação. Na tomada seguinte, já do lado de fora, a calça aparentemente se transforma em um modelo escuro e mais justo.

É uma daquelas pequenas coisas que provavelmente passam completamente despercebidas durante o filme.
Christiane F e -Axel




E existe um detalhe curioso na trilha sonora


Em determinado momento, Christiane aparece ouvindo um álbum de David Bowie, ChangesOneBowie.

Porém, a música que ouvimos na cena é "Helden", a versão alemã de "Heroes".

O problema é que "Helden" não faz parte daquele álbum.

É um detalhe pequeno, mas especialmente curioso para um filme tão fortemente associado à música de Bowie.
ChangesOneBowie Christiane F




Nem tudo sobre a abstinência mostrada no filme é totalmente realista


Outro ponto frequentemente discutido é a maneira como o filme representa a abstinência de heroína.

As cenas são extremamente fortes e mostram sintomas físicos muito intensos. Embora a abstinência de opioides possa ser bastante severa, algumas das manifestações físicas apresentadas no cinema podem ser consideradas exageradas.

Por outro lado, o filme consegue mostrar de maneira bastante eficaz outro aspecto da dependência: a compulsão e a dependência psicológica, especialmente quando os personagens voltam a usar drogas mesmo depois de tentarem parar.

É justamente esse ciclo que torna várias partes da história tão perturbadoras.
Christiane F. detox




Um detalhe que escapou na montagem


Existe ainda um erro particularmente curioso.

Em uma cena, quando Christiane e Detlev descobrem que um de seus amigos morreu, ela olha chocada para o corpo.

Logo depois, a câmera mostra um close do braço e do abdômen do personagem.

Só que, segundo espectadores que observaram atentamente a cena, é possível perceber o abdômen se movimentando.

O personagem que deveria estar morto aparentemente ainda estava respirando.

Um pequeno erro de filmagem que acabou passando pela edição final.




A dedicatória no final do filme


Talvez um dos detalhes mais importantes esteja justamente nos créditos finais.

O filme é dedicado a:

Andreas W. “Atze” (1960–1977), Axel W. (1960–1977), Babette D. "Babsi" (1963–1977) e a todos os outros que não tiveram sorte ou força para sobreviver.

A dedicatória deixa explícito que as mortes retratadas na história não eram apenas elementos dramáticos de um roteiro.

Havia pessoas reais por trás daqueles nomes.
Dedicatória no final do filme Christiane F., a Babsi, Axel e Atze




O próprio filme faz uma ressalva sobre a Sound


Outro detalhe interessante aparece nos créditos.

A produção agradece à equipe da Discoteca Sound e faz uma observação de que a discoteca havia se tornado um dos pontos de encontro de jovens mais interessantes do mundo, mas ressalva que a cena de drogas mostrada no filme não correspondia à situação da Sound naquele momento.

Isso é particularmente interessante porque o filme acabou associando para sempre a discoteca à história de Christiane F., mesmo anos depois dos acontecimentos retratados.

Quer saber o que aconteceu com a Sound depois? Confira meus outros artigos:

Sound: a discoteca de Berlim frequentada por Christiane F nos anos 70.
A Sound nos anos 1980: como era a discoteca de Christiane F.
A Sound nos anos 2000: a história da discoteca de Christiane F.
A Sound hoje: o que aconteceu com a discoteca de Christiane F.
Sound Dillingen: a nova discoteca ligada à história de Christiane F.



O cinema da Sound também escondia algumas surpresas


Durante as cenas ambientadas na Sound, é possível encontrar filmes passando nas telas do cinema do local.

Entre eles estão dois clássicos:

Nosferatu (1922), de F. W. Murnau.
Night of the Living Dead (1968), de George A. Romero.

São pequenos detalhes de ambientação que ajudam a tornar a Sound mais convincente como um espaço de encontro da juventude.




O filme sofreu cortes em alguns países


A versão exibida no Reino Unido sofreu cortes de 12 segundos para o lançamento nos cinemas.

As versões posteriores em vídeo chegaram a sofrer cortes muito maiores, com mais de cinco minutos retirados, principalmente nas cenas que mostravam a preparação e a aplicação de heroína.

Esses cortes foram posteriormente abandonados em 2000, permitindo o lançamento sem essas alterações nas versões de vídeo e DVD.

Nas versões restauradas em 4K, existe ainda uma alteração curiosa: o logotipo “Stimorol” presente em uma embalagem de chiclete foi desfocado.




A história de Christiane F. continuou aparecendo no cinema


A influência de Christiane F. não terminou com o filme de 1981.

Ao longo das décadas, o título e a personagem foram mencionados ou homenageados em diversos filmes, séries e produções audiovisuais.

Um exemplo particularmente interessante é Climax (2018), de Gaspar Noé. O livro Wir Kinder vom Bahnhof Zoo aparece no filme, e Christiane F. também é mencionada.

Também existem referências ao filme em produções como Berlin Calling (2008), Tarnation (2003), Tiny Furniture (2010) e Alex Anwandter: Rebeldes (2014), entre outras. Abaixo, uma cena do filme Adeus, Lênin (2003) mostra uma TV sintonizada no noticiário, onde se pode ver o corpo de uma jovem vítima de overdose. A jovem se trata de Livia S. Hullin, que aparece em duas páginas do livro de Christiane F. É a mesma cena, em um ângulo diferente.
Livia S Hullin em Adeus Lênin
Livro Christiane F.


A quantidade de referências mostra como Christiane F. acabou se transformando em uma espécie de símbolo cultural associado à juventude, às drogas e à Berlim Ocidental.

Veja outros trabalhos artísticos inspirados por Christiane F.:
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Christiane F. o filme



🎬 Curiosidades rápidas


Filme: Christiane F. – Wir Kinder vom Bahnhof Zoo
Diretor: Uli Edel
Ano: 1981
Christiane: Natja Brunckhorst
Detlev: Thomas Haustein
Babsi: Christiane Reichelt
Axel: Jens Kuphal
Stella: Kerstin Richter
Música: David Bowie e outros artistas
Baseado em: Wir Kinder vom Bahnhof Zoo, de Christiane Felscherinow, Kai Hermann e Horst Rieck

10/09/2026

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Christiane F.: entrevista à revista Manchete em 1985

Christiane F. em entrevista à revista Stern em 1985
Em 1985, a extinta Revista Manchete publicou uma entrevista com Christiane F. Em algumas referências, dizem que a matéria foi publicada em 1984, o que não é verdade e essa informação incorreta me deu um pouco de trabalho para achar a publicação. A informação correta é edição 1731, publicada em 22 de junho de 1985.

A matéria foi uma tradução da publicação original da Revista Alemã Stern e foi publicada também em 1985 com a seguinte capa:

Christiane F. na capa da revista Stern em 1985


Edição brasileira da matéria, com uma chamada pra lá de indelicada:
Christiane F. em entrevista à revista Manchete em 1985
Christiane F. em entrevista à revista Manchete em 1985
Christiane F. em entrevista à revista Manchete em 1985
Christiane F. em entrevista à revista Manchete em 1985




Segue abaixo a transcrição da matéria:



Aos 13 anos ela era drogada e prostituída. O livro sobre sua vida foi consagrado como um libelo à sociedade. Mas a verdadeira Christiane F., 10 anos depois, é um exemplo vivo da ausência de pensamentos e de horizontes a que a droga pode levar um ser humano. Parva, imbecilizada, nesta entrevista-verdade ela é um exemplo: não pelo que diz, mas pelo que não sabe dizer.


A verdadeira história de CHRISTIANE F.

23 anos, novamente drogada, já não mais prostituída



Reportagem de Birgit Lahann | Fotos de Gerd Krug e Klaus Meyer-Andersen | Originalmente publicada na Revista Stern

O apartamento, que fica num velho prédio, tem três cômodos e pertence a Christiane Felscherinow, conhecida como Christiane F. Na sala há um sofá de couro, um colchão e um caixão preto. Num dos quartos, uma corda esticada de ponta a ponta e roupa para passar por toda a parte. O francês Bully Claude e um filhote de doberman ocupam o outro quarto, coberto de jornal e todo urinado. "É sua tentativa de transar com o cachorrinho. Volta e meia tenho de separá-los."
Christiane F. em entrevista à revista Stern em 1985

Daqui a poucos dias, Christiane F. fará 23 anos. Tornou-se o símbolo de uma geração viciada. Aos 12 tomava haxixe, aos 13 heroína e aos 14 anos entrou para o pessoal do Bahnhof Zoo (Estação Zoo), uma famosa turma da pesada de Berlim. Mas sobreviveu. Superou os sofrimentos e os vícios. A revista alemã Stern publicou a série "Nós, Crianças do Bahnhof Zoo", que se tornou um livro de sucesso, vendendo milhões de exemplares.

Depois começou a aprender contabilidade numa pequena cidade ao norte da Alemanha. Mas interrompeu o estudo. "Afinal, você só é explorado como aprendiz. Tive a impressão de já saber tudo após seis meses." Tentou ser cantora e chegou a participar de um filme ruim para se autopromover, fazendo o papel de uma go-go girl. E depois viajou sem rumo pelo mundo. Quando filmaram o roteiro sobre sua vida, trabalhou como conselheira. E o filme também se tornou um sucesso, rendendo milhões de marcos.

Depois não se ouviu mais falar dela, até que há um ano foi presa durante uma revista no apartamento de um traficante de heroína. E foi acusada de "aquisição de heroína para uso próprio". Na semana passada, foi a julgamento.

— Christiane, você foi condenada a uma multa de três mil marcos alemães por ter sido apanhada com heroína. O julgamento a surpreendeu?
— Não, eu já sabia. O juiz e os advogados já sabem de antemão qual será o resultado.

— O seu advogado levou um sósia ao tribunal para que você não fosse reconhecida. Você entrou logo em seguida...
— E como eles caíram sobre a gente. Eu me aborreci mais com os jornalistas. Ali a pessoa é apenas uma mercadoria.

— Você declarou no tribunal que jamais tomaria heroína de novo, que teria sido a última vez...
— Você pode ver pelo que eles escreveram. Eu não disse isso. Não posso saber isso agora e passarei por ridícula se acontecer novamente. E então surge outro escândalo, mas aí não fico mais na Alemanha, vou embora.

— E para onde você quer ir, então?
— Ah, talvez a Itália.

— E por que a Itália?
— Lá a vida é muito alegre, todos falam ao mesmo tempo e isso me diverte muito.
Christiane F. em entrevista à revista Stern em 1985

— Por que você teve esta recaída?
— Não sei. Foi o acaso. Quando a gente conhece a sensação que se tem com a heroína, nunca se esquece. É tão boa...

— E acaba em catástrofe. Você já passou por tudo isso: dependência, arranjar dinheiro, roubo, prostituição. E dois de seus amigos morreram por causa da heroína.
— Prostituição foi a pior das coisas e essa nunca mais farei. Afinal, agora também já estou mais velha.

— Mesmo assim você se deixou levar...
— Bem, preferi tomar heroína a beber álcool. Não há droga pior do que o álcool. Mesmo os viciados em heroína não se arrasam tanto quanto os alcoólatras.

— Mas com heroína a descida é mais rápida.
— Bem, a minha recaída não me fez mal. Não me alterei socialmente.

— Mas você voltou a ser um caso de polícia.
— Ah, os policiais. Os que nos levaram presos eram da minha idade. Eram horrivelmente malcriados. Nos prenderam com algemas como cães presos às correntes. E não podíamos conversar. E nos arrancaram os maços de cigarro.

— E enquanto isso revistaram o apartamento do traficante?
— Não. Fizeram isso enquanto estávamos fora. Lá dentro eles precisam de muita calma para jogar tudo no chão. Eles desarrumaram tudo.

— Isto foi há exatamente um ano. Desde então você não se viu novamente tentada?
— Não, já saí dessa.

— Já esteve no Bahnhof Zoo?
— Bahnhof Zoo é um lugar muito querido. A cena muda constantemente. Bahnhof Zoo está em toda parte. Naquela época éramos nós que estávamos lá e depois mais ninguém. Não tenho vontade de chorar quando passo por lá.

— Você foi uma espécie de Joana d'Arc do cenário das drogas nos anos 80. Você sobreviveu e superou. Nunca sentiu necessidade de ajudar os viciados?
— Não, nunca me senti responsável pelos outros. Cada um deve saber o que está fazendo.

— Você nunca se viu como um ídolo, como símbolo de esperança para os desesperados?
— Eu achava sempre engraçado ler isso nos jornais. Nunca me senti como ídolo. Aquela era outra pessoa.

— Esta pessoa, a famosa Christiane F., foi convidada do chefe da Editora Diógenes, de Zurique, durante oito semanas. Como peça de exposição na alta sociedade?
— Eu já me sentia aceita. Anna Keel, esposa de Daniel Keel, dono da editora, me telefonara em Berlim me convidando para ir a Zurique. Após um ano, fui para lá. Eles me trataram como a uma filha. Não faltou muito para que eu os chamasse de mamãe e papai.

— E papai e mamãe também pediram algo a você?
— Os dois filhos recebem sempre um programa cultural do qual eu também devia participar.

— Como é que devia? Isso era controlado?
— Sim, durante o jantar.

— E como era o programa?
— Já começou em Berlim, quando Anna me apanhou. Então tive de ir com ela assistir à peça de Tchekov, "As Três Irmãs". E foi muito legal. O cenário tinha árvores de verdade. Durou quatro horas...

— E em Zurique?
— Lá eu também tinha de ir ao teatro. Deveria assistir a algo tipicamente suíço. Mas era falado em alemão. Fui ver a farsa "A Loucura Nua". Horrível. Era um cenário de várias portas, por onde as pessoas viviam entrando e saindo. Tchekov pelo menos era um tipo alegre. Isso eu sei porque tenho livros dele.

Christiane F. em entrevista à revista Stern em 1985
Aos 23 anos, Christiane F., com o corpo de uma colegial e o rosto que não revela todos os sofrimentos vividos, deplora a prostituição e diz que foi a pior coisa por que passou. Não quer repeti-la. Até porque, segundo ela, já está velha.



— E o que mais constava do programa cultural suíço?
— Bem, estivemos em Roma e conhecemos o Fellini. Nós o vimos filmando e depois almoçamos em Cinecittà.

— E em que língua conversavam?
— Em inglês. Mas gostaria muito de aprender italiano.

— E por que não aprende?
— Não tenho tempo.

— Não tem tempo? Mas você nem trabalha. Deveria ter bastante tempo para estudar.
— Eu deveria pensar nisso. Mas estudar sozinha em casa é que não dá. Eu preciso sempre de alguém que me puxe. Sou preguiçosa.

— Em Zurique você também conheceu o famoso escritor Friedrich Duerrenmatt?
— Eu não queria conhecê-lo. Eu o detesto por causa das leituras na escola.

— Quantas vezes você leu seu livro Christiane F.?
— Talvez umas três vezes. Sempre tentava fazer como se não fosse eu aquela ali. Também queria saber por que os outros gostavam tanto do livro.

— E quais os outros livros de que gosta?
— O "Grosskotz", de Mathias Nolte. E "Cream Train", de Andrea Carlo. São os meus preferidos.

— Agora você está novamente em Berlim, sem o apoio da família. Mas também não vive sozinha. Trouxe um amigo de Zurique, um palestino de Israel.
— Samir vai embora daqui a pouco. Para mim ainda é difícil encontrar um companheiro. A maioria se deixa tiranizar por mim. Quando eles começam a fazer o que eu gostaria, então não os respeito mais. E além disso, veja este aqui. Fuma quatro maços de cigarro por dia. Impossível. Eu já fumo quatro maços de cigarro. Isso é demais. E me irrita muito quando alguém faz a barba, deixando a água escorrer pela torneira, pois isso é desperdício. Ou quando alguém usa meia garrafa de detergente para lavar uma xícara. Os produtos de limpeza da casa poluem o meio ambiente tanto quanto a indústria.

Christiane F. em entrevista à revista Stern em 1985


— Você agora é uma verde?
— Infelizmente, os verdes não são profissionais, pois brigam entre si. Além do mais, assusta qualquer um quando surge um barbudo.

— Preceitos bem pequeno-burgueses...
— Mas deste jeito eles não conseguem votos suficientes.

— Você já discutiu com os verdes?
— Não, detesto discussões.

— O que é mais interessante do que discutir?
— Assistir à televisão, de preferência deitada na cama. Não aguento ler jornal. Na música, nada me interessa. Se todos vão para Tina Turner, não tenho que ir também. Prefiro grupos amadores.

— Ouve com walkman?
— Ele foi roubado, como tudo. Fui roubada por uma amiga. Cristina. Ela levou tudo. Cosméticos, roupas, xícaras e pratos e 700 marcos alemães. Também não gostaria mais de ter dinheiro. Não sei lidar com dinheiro, sou muito boa. Vivo no mundo errado, com amigos errados. Mas não posso mudar nada.

— Não tem ninguém a quem pudesse recorrer, se não estivesse bem?
— Não.

— E sua mãe?
— Não sei o que dizer à minha mãe.

— Você não está aborrecida por ter interrompido os estudos?
— Não. O Daniel Keel também interrompeu. Estudo está fora de moda. Aprende-se tudo em seis meses e depois a gente é explorada.

— Você é pelo menos tão antiquada a ponto de cozinhar para si?
— Não sei cozinhar e, se não tiver nada pronto, não como.

— Existe algum tipo de mulher que você gostaria de ser?
— (Longa pausa). Eu acho que também não sou ruim.

— Então você não tem planos?
— Quando faço planos e eles fracassam, fico deprimida. Por isso não tenho desejos nem sonhos.

— Como você imagina o amanhã?
— Não marco nada com ninguém com prazo maior do que uma semana.

— E as férias?
— Quando quero viajar, então compro a passagem e vou.

— Então você acabou de vir da tranqüila vida familiar na Suíça de volta à terrível Alemanha...
— Quando viemos de Zurique, tivemos que fazer baldeação em Hanover. Estava usando um costume rosa e um pano vermelho e puxava o carrinho das malas. Todos pareciam embasbacados.

— ... da Christiane, da oprimida...
— E eu fiquei furiosa e meu amigo dizia para eu tirar o pano. Mas me recusei, pois quero que as pessoas fiquem ainda mais abobadas.

— E o que fazer para conseguir isso?
— Levei muito tempo tentando esclarecê-las. Acabei desistindo. E, quando cismo, tento bestificá-las, o que elas aceitam passivamente. Não gosto mais das pessoas.

— Mas também não gosta de ficar sozinha.
— Eu odeio isso. Quando meu amigo voltar para Israel, me ligo para alguém vir para cá morar comigo.

— Medo da solidão? Ou de que mais?
— Bem, tenho um trauma de trens. Sempre penso que quando morrer será sob um trem.

Christiane F. em entrevista à revista Stern em 1985
O FUTURO, PARA CHRISTIANE, TEM NO MÁXIMO UMA SEMANA DE DURAÇÃO
No pequeno apartamento, o caótico ambiente em que um caixão é utilizado à guisa de armário, e Bruce Lee, como Kung-Fu, um dos ídolos cultuados.



— Você ganhou muito dinheiro com seu livro e comprou este apartamento. Onde ficou o resto do dinheiro? E quanto há aqui no caixão?
— Não, aí tenho todas as minhas contas.

— Então está dura no momento?
— Estou falida. Tenho de pagar 65% de imposto...

— ... o que você esqueceu de fazer.
— E quando entra dinheiro eles retiram logo para a receita. Até meu telefone está interceptado. Não paguei o condomínio e outras coisas...

Documento de Christiane F.
A identidade de uma menina/mulher que o mundo conhece pelo avesso: Vera Christiane Felscherinow.



— E como quer ganhar dinheiro no futuro?
— Não posso imaginar que trabalhar seja um prazer. Eu me sinto sempre muito mal quando alguém me pergunta em que trabalho. Como as pessoas olham sem compreensão quando a gente diz que não trabalha. Não conseguem entender que amigos vivem de amigos. Provavelmente ainda não estou madura o suficiente para saber o que quero.

— Mas o que você gostaria de fazer?
— Eu gostaria mesmo é de ter um asilo particular para animais. Mas meus amigos são contra. Dizem que não devo jogar minha inteligência fora em algo assim. Eu deveria fazer algo que mudasse o mundo.


Veja matérias sobre Christiane F. em outras revistas:
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16/02/2019

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Christiane F. vai virar série na Amazon Prime Video

Christiane F. vai virar série na Amazon Prime Video

A história de Christiane F. está prestes a voltar às telas. A Amazon Prime Video anunciou nesta semana que irá produzir uma nova série baseada em Wir Kinder vom Bahnhof Zoo, o livro que tornou conhecida a história da adolescente que mergulhou no mundo das drogas e da prostituição em Berlim Ocidental nos anos 1970.

Quase quatro décadas depois do lançamento do filme de Uli Edel, a história de Christiane será novamente adaptada — desta vez para a televisão e em formato de série.

O anúncio foi feito pela Amazon em fevereiro deste ano como parte de uma nova rodada de produções internacionais do Prime Video. Entre os projetos anunciados pelo serviço estava justamente uma nova versão de Wir Kinder vom Bahnhof Zoo, que será produzida na Alemanha.

A proposta é apresentar uma nova interpretação da história de Christiane F. e de seu grupo de amigos, tendo como cenário a Berlim Ocidental dos anos 1970 e o ambiente da cena das drogas que ficou conhecido mundialmente através do livro e do filme.



Uma nova versão de uma história conhecida


Publicado originalmente em 1978, Wir Kinder vom Bahnhof Zoo se tornou um dos livros mais conhecidos sobre a juventude e o consumo de drogas na Alemanha. A história foi transformada em filme em 1981, com Natja Brunckhorst no papel de Christiane F. e direção de Uli Edel.

O longa acabou se tornando um filme cult e levou a história para uma quantidade ainda maior de pessoas fora da Alemanha. A presença de David Bowie, tanto na trama quanto na trilha sonora de Christiane F., também ajudou a transformar o filme em uma das obras mais lembradas sobre a Berlim dos anos 1970.

Agora, a Amazon pretende contar novamente essa história, mas em um formato que permite explorar com muito mais espaço a vida dos personagens.

A série será uma nova adaptação do material original, e não simplesmente uma versão estendida do filme de 1981.

Uma das capas brasileiras do livro Eu, Christiane F, 13 anos, drogada, prostituída...
A capa original brasileira na época do lançamento do livro "Eu, Christiane F, 13 anos, drogada, prostituída..."



Quem está por trás da série?


A produção ficará a cargo da Constantin Television, em parceria com a Amazon Studios. Os produtores anunciados são Oliver Berben e Sophie von Uslar.

O roteiro será desenvolvido por Annette Hess, conhecida por trabalhos como Weissensee e Ku'damm 56/59. Hess será a responsável pela equipe de roteiristas da produção.

A direção ficará por conta de Philipp Kadelbach, diretor alemão conhecido por trabalhos como Unsere Mütter, unsere Väter, SS-GB e Parfum.

O projeto já estava sendo desenvolvido pela Constantin Television antes do anúncio da Amazon. A adaptação de Annette Hess e o produtor Oliver Berben haviam sido associados à série desde 2017, mas agora a produção finalmente encontrou uma casa no Prime Video.



O que esperar da nova série?


Ainda são poucas as informações divulgadas pela Amazon. O elenco ainda não foi anunciado e também não existem imagens oficiais da produção.

A expectativa é que as filmagens comecem ainda em 2019, com lançamento previsto inicialmente para 2020.

O que já se sabe é que a série pretende apresentar uma visão moderna da história de Christiane F. e de seu círculo de amigos, mostrando novamente a juventude que frequentava a noite de Berlim e acabava mergulhando cada vez mais profundamente no mundo das drogas.

O formato de série também pode permitir que alguns aspectos da história sejam desenvolvidos com mais calma do que foram no filme de 1981, pois há mais tempo de tela.

A relação entre Christiane e sua família, a vida em Gropiusstadt, o Centro de Jovens, a Sound, a amizade entre os personagens e a transformação gradual daquele grupo de adolescentes podem ganhar mais espaço na nova produção.



Será que a nova série será fiel ao livro?


Essa talvez seja uma das perguntas mais interessantes para quem conhece a história original.

O filme de 1981 é lembrado até hoje por sua representação extremamente crua da trajetória de Christiane, mas a própria Christiane F. real já declarou que não se reconhecia completamente naquela versão de sua história.

Em uma entrevista concedida em 2013, durante o lançamento de seu segundo livro, Christiane F. – Mein zweites Leben (no Brasil chamado de Christiane F. – A Vida Apesar de Tudo), ela criticou alguns aspectos da adaptação cinematográfica e afirmou que o filme não mostrava determinadas experiências de sua infância e de sua vida familiar.

Uma série baseada novamente no material original pode, portanto, ter a oportunidade de explorar personagens e acontecimentos que ficaram de fora do filme.

Mas ainda é cedo para saber qual caminho os roteiristas irão escolher. Por enquanto, a Amazon descreve o projeto como uma nova e moderna interpretação da história de Christiane F.

Cena do filme de Christiane F. lançado em 1981


Christiane F. está de volta


É curioso pensar que uma história publicada pela primeira vez há mais de 40 anos esteja prestes a ganhar uma nova geração de espectadores.

Wir Kinder vom Bahnhof Zoo já passou pelas páginas de um livro, pelo cinema e agora chegará ao streaming. A história que marcou uma geração de leitores e espectadores alemães será apresentada novamente para um público que cresceu em uma realidade completamente diferente daquela Berlim Ocidental dos anos 1970.

Por enquanto, ainda não sabemos quem será a nova Christiane, quem interpretará Detlef, Babsi, Stella, Axel e os outros personagens, nem exatamente como a Amazon pretende reconstruir a Berlim daquela época.

Também não sabemos se David Bowie terá algum espaço na nova produção ou como a música será utilizada na série.

Agora é esperar pelas primeiras imagens, pelo elenco e por mais informações sobre a produção.

Depois de quase 40 anos, Christiane F. está prestes a voltar para as telas.

14/07/2018

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Raf Simons e a coleção inspirada em Christiane F.

Raf Simons coleção Youth in Motion inspirada em Christiane F.

Em 2017, o estilista belga Raf Simons apresentou uma coleção inspirada no filme Christiane F. (1981), dirigido por Uli Edel. A história já fazia parte do imaginário de Simons desde a época em que ele era estudante, quando teve contato com o livro que deu origem ao filme.

A coleção, batizada de Youth in Motion, levou para as roupas referências bastante explícitas ao universo de Christiane F., incluindo os personagens Christiane e Detlef e elementos associados à cultura das drogas e à juventude marginalizada retratada no filme.

A ideia, no papel, até é interessante. Simons tentou transformar o filme em uma espécie de comentário sobre dependência química, marginalização e a dificuldade de discutir as causas da dependência. Parte da renda da coleção seria destinada a organizações voltadas à recuperação de dependentes químicos.

O problema é que uma boa ideia não salva uma coleção horrorosa. É só colocar a etiqueta CONCEITO e alguém passa pano e compra.

Visualmente, é difícil olhar para essas peças e pensar em outra coisa além de que o conceito era ser mal feitão mesmo, como aquelas camisetas surradas de bandas de rock que a gente ama. A diferença é o preço: as camisetas de banda mal feitonas são baratas, enquanto estas peças de Raf Simons custam 295 fucking euros.

As camisetas, principalmente, parecem ter sido feitas com o mínimo de esforço possível: pega uma imagem do filme, joga uma estampa por cima e pronto. Até a gráfica de bairro que faz camiseta de "saudades eternas" provavelmente entregaria mais capricho.

Se você quiser economizar seus 295 fucking euros, pegue você uma imagem de Natja Brunckhorst como Christiane F., leve até a gráfica da esquina e peça o transfer mais vagabundo que eles oferecerem. Vai te custar bem menos e se for para uso estritamente pessoal não é pirataria.

Desfile de Raf Simons com coleção inspirada em Christiane F.

A proposta de usar Christiane F. como referência não é ruim. Muito pelo contrário. Vamos ser sinceros, a gente sabe, Christiane F. is a vibe! O filme tem uma identidade visual fortíssima, uma história conhecida internacionalmente e uma quantidade enorme de elementos que poderiam ter sido explorados de maneira muito mais criativa.

O conceito é interessante. A execução é que foi preguiçosa e pífia.


Veja outros trabalhos artísticos inspirados por Christiane F.:
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E esse talvez seja o maior problema da coleção: ela parece depender demais do peso cultural da referência. Como se bastasse estampar Christiane F. em uma peça para que automaticamente aquilo se transformasse em moda, crítica social ou arte.

Não basta.

Uma referência forte exige uma interpretação à altura dela. E, nesse caso, fica a sensação de que Raf Simons encontrou uma história visualmente poderosa, tirou algumas imagens diretamente dela e transformou tudo em uma coleção que parece muito mais interessada em vender o conceito de Christiane F. do que em realmente fazer alguma coisa interessante com ele.

É Christiane F.? É. É uma coleção inspirada no filme? Sem dúvida. É boa? Aí já é outra história.

E, sinceramente, vendo algumas dessas peças, fica difícil não pensar que alguém poderia ter feito muito melhor com o mesmo material.

Abaixo, a prória atriz Natja Brunckhorst usando a camiseta de Raf Simons:

Natja Brunckhorst usando a camiseta de Raf Simons


As demais imagens são de modelos usando as peças:
Coleção Raf Simons inspirada no filme Christiane F. de 1981
Peças da coleção Raf Simons inspirada em Christiane F. e Detlef
Camiseta da coleção Youth in Motion de Raf Simons com referência a Christiane F.
Christiane F. e Detlef na coleção de Raf Simons
Raf Simons Youth in Motion camiseta inspirada em Christiane F.
Raf Simons Christiane F. Youth in Motion coleção de moda

Paginação numerada