Em 1985, a extinta Revista Manchete publicou uma entrevista com Christiane F. Em algumas referências, dizem que a matéria foi publicada em 1984, o que não é verdade e essa informação incorreta me deu um pouco de trabalho para achar a publicação. A informação correta é edição 1731, publicada em 22 de junho de 1985.
A matéria foi uma tradução da publicação original da Revista Alemã Stern e foi publicada também em 1985 com a seguinte capa:
Edição brasileira da matéria, com uma chamada pra lá de indelicada:
Segue abaixo a transcrição da matéria:
Aos 13 anos ela era drogada e prostituída. O livro sobre sua vida foi consagrado como um libelo à sociedade. Mas a verdadeira Christiane F., 10 anos depois, é um exemplo vivo da ausência de pensamentos e de horizontes a que a droga pode levar um ser humano. Parva, imbecilizada, nesta entrevista-verdade ela é um exemplo: não pelo que diz, mas pelo que não sabe dizer.
Reportagem de Birgit Lahann | Fotos de Gerd Krug e Klaus Meyer-Andersen | Originalmente publicada na Revista Stern
O apartamento, que fica num velho prédio, tem três cômodos e pertence a Christiane Felscherinow, conhecida como Christiane F. Na sala há um sofá de couro, um colchão e um caixão preto. Num dos quartos, uma corda esticada de ponta a ponta e roupa para passar por toda a parte. O francês Bully Claude e um filhote de doberman ocupam o outro quarto, coberto de jornal e todo urinado. "É sua tentativa de transar com o cachorrinho. Volta e meia tenho de separá-los."
Daqui a poucos dias, Christiane F. fará 23 anos. Tornou-se o símbolo de uma geração viciada. Aos 12 tomava haxixe, aos 13 heroína e aos 14 anos entrou para o pessoal do Bahnhof Zoo (Estação Zoo), uma famosa turma da pesada de Berlim. Mas sobreviveu. Superou os sofrimentos e os vícios. A revista alemã Stern publicou a série "Nós, Crianças do Bahnhof Zoo", que se tornou um livro de sucesso, vendendo milhões de exemplares.
Depois começou a aprender contabilidade numa pequena cidade ao norte da Alemanha. Mas interrompeu o estudo. "Afinal, você só é explorado como aprendiz. Tive a impressão de já saber tudo após seis meses." Tentou ser cantora e chegou a participar de um filme ruim para se autopromover, fazendo o papel de uma go-go girl. E depois viajou sem rumo pelo mundo. Quando filmaram o roteiro sobre sua vida, trabalhou como conselheira. E o filme também se tornou um sucesso, rendendo milhões de marcos.
Depois não se ouviu mais falar dela, até que há um ano foi presa durante uma revista no apartamento de um traficante de heroína. E foi acusada de "aquisição de heroína para uso próprio". Na semana passada, foi a julgamento.
— Christiane, você foi condenada a uma multa de três mil marcos alemães por ter sido apanhada com heroína. O julgamento a surpreendeu?
— Não, eu já sabia. O juiz e os advogados já sabem de antemão qual será o resultado.
— O seu advogado levou um sósia ao tribunal para que você não fosse reconhecida. Você entrou logo em seguida...
— E como eles caíram sobre a gente. Eu me aborreci mais com os jornalistas. Ali a pessoa é apenas uma mercadoria.
— Você declarou no tribunal que jamais tomaria heroína de novo, que teria sido a última vez...
— Você pode ver pelo que eles escreveram. Eu não disse isso. Não posso saber isso agora e passarei por ridícula se acontecer novamente. E então surge outro escândalo, mas aí não fico mais na Alemanha, vou embora.
— E para onde você quer ir, então?
— Ah, talvez a Itália.
— E por que a Itália?
— Lá a vida é muito alegre, todos falam ao mesmo tempo e isso me diverte muito.
— Por que você teve esta recaída?
— Não sei. Foi o acaso. Quando a gente conhece a sensação que se tem com a heroína, nunca se esquece. É tão boa...
— E acaba em catástrofe. Você já passou por tudo isso: dependência, arranjar dinheiro, roubo, prostituição. E dois de seus amigos morreram por causa da heroína.
— Prostituição foi a pior das coisas e essa nunca mais farei. Afinal, agora também já estou mais velha.
— Mesmo assim você se deixou levar...
— Bem, preferi tomar heroína a beber álcool. Não há droga pior do que o álcool. Mesmo os viciados em heroína não se arrasam tanto quanto os alcoólatras.
— Mas com heroína a descida é mais rápida.
— Bem, a minha recaída não me fez mal. Não me alterei socialmente.
— Mas você voltou a ser um caso de polícia.
— Ah, os policiais. Os que nos levaram presos eram da minha idade. Eram horrivelmente malcriados. Nos prenderam com algemas como cães presos às correntes. E não podíamos conversar. E nos arrancaram os maços de cigarro.
— E enquanto isso revistaram o apartamento do traficante?
— Não. Fizeram isso enquanto estávamos fora. Lá dentro eles precisam de muita calma para jogar tudo no chão. Eles desarrumaram tudo.
— Isto foi há exatamente um ano. Desde então você não se viu novamente tentada?
— Não, já saí dessa.
— Já esteve no Bahnhof Zoo?
— Bahnhof Zoo é um lugar muito querido. A cena muda constantemente. Bahnhof Zoo está em toda parte. Naquela época éramos nós que estávamos lá e depois mais ninguém. Não tenho vontade de chorar quando passo por lá.
— Você foi uma espécie de Joana d'Arc do cenário das drogas nos anos 80. Você sobreviveu e superou. Nunca sentiu necessidade de ajudar os viciados?
— Não, nunca me senti responsável pelos outros. Cada um deve saber o que está fazendo.
— Você nunca se viu como um ídolo, como símbolo de esperança para os desesperados?
— Eu achava sempre engraçado ler isso nos jornais. Nunca me senti como ídolo. Aquela era outra pessoa.
— Esta pessoa, a famosa Christiane F., foi convidada do chefe da Editora Diógenes, de Zurique, durante oito semanas. Como peça de exposição na alta sociedade?
— Eu já me sentia aceita. Anna Keel, esposa de Daniel Keel, dono da editora, me telefonara em Berlim me convidando para ir a Zurique. Após um ano, fui para lá. Eles me trataram como a uma filha. Não faltou muito para que eu os chamasse de mamãe e papai.
— E papai e mamãe também pediram algo a você?
— Os dois filhos recebem sempre um programa cultural do qual eu também devia participar.
— Como é que devia? Isso era controlado?
— Sim, durante o jantar.
— E como era o programa?
— Já começou em Berlim, quando Anna me apanhou. Então tive de ir com ela assistir à peça de Tchekov, "As Três Irmãs". E foi muito legal. O cenário tinha árvores de verdade. Durou quatro horas...
— E em Zurique?
— Lá eu também tinha de ir ao teatro. Deveria assistir a algo tipicamente suíço. Mas era falado em alemão. Fui ver a farsa "A Loucura Nua". Horrível. Era um cenário de várias portas, por onde as pessoas viviam entrando e saindo. Tchekov pelo menos era um tipo alegre. Isso eu sei porque tenho livros dele.
Aos 23 anos, Christiane F., com o corpo de uma colegial e o rosto que não revela todos os sofrimentos vividos, deplora a prostituição e diz que foi a pior coisa por que passou. Não quer repeti-la. Até porque, segundo ela, já está velha.
— E o que mais constava do programa cultural suíço?
— Bem, estivemos em Roma e conhecemos o Fellini. Nós o vimos filmando e depois almoçamos em Cinecittà.
— E em que língua conversavam?
— Em inglês. Mas gostaria muito de aprender italiano.
— E por que não aprende?
— Não tenho tempo.
— Não tem tempo? Mas você nem trabalha. Deveria ter bastante tempo para estudar.
— Eu deveria pensar nisso. Mas estudar sozinha em casa é que não dá. Eu preciso sempre de alguém que me puxe. Sou preguiçosa.
— Em Zurique você também conheceu o famoso escritor Friedrich Duerrenmatt?
— Eu não queria conhecê-lo. Eu o detesto por causa das leituras na escola.
— Quantas vezes você leu seu livro Christiane F.?
— Talvez umas três vezes. Sempre tentava fazer como se não fosse eu aquela ali. Também queria saber por que os outros gostavam tanto do livro.
— E quais os outros livros de que gosta?
— O "Grosskotz", de Mathias Nolte. E "Cream Train", de Andrea Carlo. São os meus preferidos.
— Agora você está novamente em Berlim, sem o apoio da família. Mas também não vive sozinha. Trouxe um amigo de Zurique, um palestino de Israel.
— Samir vai embora daqui a pouco. Para mim ainda é difícil encontrar um companheiro. A maioria se deixa tiranizar por mim. Quando eles começam a fazer o que eu gostaria, então não os respeito mais. E além disso, veja este aqui. Fuma quatro maços de cigarro por dia. Impossível. Eu já fumo quatro maços de cigarro. Isso é demais. E me irrita muito quando alguém faz a barba, deixando a água escorrer pela torneira, pois isso é desperdício. Ou quando alguém usa meia garrafa de detergente para lavar uma xícara. Os produtos de limpeza da casa poluem o meio ambiente tanto quanto a indústria.
— Você agora é uma verde?
— Infelizmente, os verdes não são profissionais, pois brigam entre si. Além do mais, assusta qualquer um quando surge um barbudo.
— Preceitos bem pequeno-burgueses...
— Mas deste jeito eles não conseguem votos suficientes.
— Você já discutiu com os verdes?
— Não, detesto discussões.
— O que é mais interessante do que discutir?
— Assistir à televisão, de preferência deitada na cama. Não aguento ler jornal. Na música, nada me interessa. Se todos vão para Tina Turner, não tenho que ir também. Prefiro grupos amadores.
— Ouve com walkman?
— Ele foi roubado, como tudo. Fui roubada por uma amiga. Cristina. Ela levou tudo. Cosméticos, roupas, xícaras e pratos e 700 marcos alemães. Também não gostaria mais de ter dinheiro. Não sei lidar com dinheiro, sou muito boa. Vivo no mundo errado, com amigos errados. Mas não posso mudar nada.
— Não tem ninguém a quem pudesse recorrer, se não estivesse bem?
— Não.
— E sua mãe?
— Não sei o que dizer à minha mãe.
— Você não está aborrecida por ter interrompido os estudos?
— Não. O Daniel Keel também interrompeu. Estudo está fora de moda. Aprende-se tudo em seis meses e depois a gente é explorada.
— Você é pelo menos tão antiquada a ponto de cozinhar para si?
— Não sei cozinhar e, se não tiver nada pronto, não como.
— Existe algum tipo de mulher que você gostaria de ser?
— (Longa pausa). Eu acho que também não sou ruim.
— Então você não tem planos?
— Quando faço planos e eles fracassam, fico deprimida. Por isso não tenho desejos nem sonhos.
— Como você imagina o amanhã?
— Não marco nada com ninguém com prazo maior do que uma semana.
— E as férias?
— Quando quero viajar, então compro a passagem e vou.
— Então você acabou de vir da tranqüila vida familiar na Suíça de volta à terrível Alemanha...
— Quando viemos de Zurique, tivemos que fazer baldeação em Hanover. Estava usando um costume rosa e um pano vermelho e puxava o carrinho das malas. Todos pareciam embasbacados.
— ... da Christiane, da oprimida...
— E eu fiquei furiosa e meu amigo dizia para eu tirar o pano. Mas me recusei, pois quero que as pessoas fiquem ainda mais abobadas.
— E o que fazer para conseguir isso?
— Levei muito tempo tentando esclarecê-las. Acabei desistindo. E, quando cismo, tento bestificá-las, o que elas aceitam passivamente. Não gosto mais das pessoas.
— Mas também não gosta de ficar sozinha.
— Eu odeio isso. Quando meu amigo voltar para Israel, me ligo para alguém vir para cá morar comigo.
— Medo da solidão? Ou de que mais?
— Bem, tenho um trauma de trens. Sempre penso que quando morrer será sob um trem.
O FUTURO, PARA CHRISTIANE, TEM NO MÁXIMO UMA SEMANA DE DURAÇÃO
No pequeno apartamento, o caótico ambiente em que um caixão é utilizado à guisa de armário, e Bruce Lee, como Kung-Fu, um dos ídolos cultuados.
— Você ganhou muito dinheiro com seu livro e comprou este apartamento. Onde ficou o resto do dinheiro? E quanto há aqui no caixão?
— Não, aí tenho todas as minhas contas.
— Então está dura no momento?
— Estou falida. Tenho de pagar 65% de imposto...
— ... o que você esqueceu de fazer.
— E quando entra dinheiro eles retiram logo para a receita. Até meu telefone está interceptado. Não paguei o condomínio e outras coisas...
A identidade de uma menina/mulher que o mundo conhece pelo avesso: Vera Christiane Felscherinow.
— E como quer ganhar dinheiro no futuro?
— Não posso imaginar que trabalhar seja um prazer. Eu me sinto sempre muito mal quando alguém me pergunta em que trabalho. Como as pessoas olham sem compreensão quando a gente diz que não trabalha. Não conseguem entender que amigos vivem de amigos. Provavelmente ainda não estou madura o suficiente para saber o que quero.
— Mas o que você gostaria de fazer?
— Eu gostaria mesmo é de ter um asilo particular para animais. Mas meus amigos são contra. Dizem que não devo jogar minha inteligência fora em algo assim. Eu deveria fazer algo que mudasse o mundo.
A matéria foi uma tradução da publicação original da Revista Alemã Stern e foi publicada também em 1985 com a seguinte capa:
Edição brasileira da matéria, com uma chamada pra lá de indelicada:
Segue abaixo a transcrição da matéria:
Aos 13 anos ela era drogada e prostituída. O livro sobre sua vida foi consagrado como um libelo à sociedade. Mas a verdadeira Christiane F., 10 anos depois, é um exemplo vivo da ausência de pensamentos e de horizontes a que a droga pode levar um ser humano. Parva, imbecilizada, nesta entrevista-verdade ela é um exemplo: não pelo que diz, mas pelo que não sabe dizer.
A verdadeira história de CHRISTIANE F.
23 anos, novamente drogada, já não mais prostituída
Reportagem de Birgit Lahann | Fotos de Gerd Krug e Klaus Meyer-Andersen | Originalmente publicada na Revista Stern
O apartamento, que fica num velho prédio, tem três cômodos e pertence a Christiane Felscherinow, conhecida como Christiane F. Na sala há um sofá de couro, um colchão e um caixão preto. Num dos quartos, uma corda esticada de ponta a ponta e roupa para passar por toda a parte. O francês Bully Claude e um filhote de doberman ocupam o outro quarto, coberto de jornal e todo urinado. "É sua tentativa de transar com o cachorrinho. Volta e meia tenho de separá-los."
Daqui a poucos dias, Christiane F. fará 23 anos. Tornou-se o símbolo de uma geração viciada. Aos 12 tomava haxixe, aos 13 heroína e aos 14 anos entrou para o pessoal do Bahnhof Zoo (Estação Zoo), uma famosa turma da pesada de Berlim. Mas sobreviveu. Superou os sofrimentos e os vícios. A revista alemã Stern publicou a série "Nós, Crianças do Bahnhof Zoo", que se tornou um livro de sucesso, vendendo milhões de exemplares.
Depois começou a aprender contabilidade numa pequena cidade ao norte da Alemanha. Mas interrompeu o estudo. "Afinal, você só é explorado como aprendiz. Tive a impressão de já saber tudo após seis meses." Tentou ser cantora e chegou a participar de um filme ruim para se autopromover, fazendo o papel de uma go-go girl. E depois viajou sem rumo pelo mundo. Quando filmaram o roteiro sobre sua vida, trabalhou como conselheira. E o filme também se tornou um sucesso, rendendo milhões de marcos.
Depois não se ouviu mais falar dela, até que há um ano foi presa durante uma revista no apartamento de um traficante de heroína. E foi acusada de "aquisição de heroína para uso próprio". Na semana passada, foi a julgamento.
— Christiane, você foi condenada a uma multa de três mil marcos alemães por ter sido apanhada com heroína. O julgamento a surpreendeu?
— Não, eu já sabia. O juiz e os advogados já sabem de antemão qual será o resultado.
— O seu advogado levou um sósia ao tribunal para que você não fosse reconhecida. Você entrou logo em seguida...
— E como eles caíram sobre a gente. Eu me aborreci mais com os jornalistas. Ali a pessoa é apenas uma mercadoria.
— Você declarou no tribunal que jamais tomaria heroína de novo, que teria sido a última vez...
— Você pode ver pelo que eles escreveram. Eu não disse isso. Não posso saber isso agora e passarei por ridícula se acontecer novamente. E então surge outro escândalo, mas aí não fico mais na Alemanha, vou embora.
— E para onde você quer ir, então?
— Ah, talvez a Itália.
— E por que a Itália?
— Lá a vida é muito alegre, todos falam ao mesmo tempo e isso me diverte muito.
— Por que você teve esta recaída?
— Não sei. Foi o acaso. Quando a gente conhece a sensação que se tem com a heroína, nunca se esquece. É tão boa...
— E acaba em catástrofe. Você já passou por tudo isso: dependência, arranjar dinheiro, roubo, prostituição. E dois de seus amigos morreram por causa da heroína.
— Prostituição foi a pior das coisas e essa nunca mais farei. Afinal, agora também já estou mais velha.
— Mesmo assim você se deixou levar...
— Bem, preferi tomar heroína a beber álcool. Não há droga pior do que o álcool. Mesmo os viciados em heroína não se arrasam tanto quanto os alcoólatras.
— Mas com heroína a descida é mais rápida.
— Bem, a minha recaída não me fez mal. Não me alterei socialmente.
— Mas você voltou a ser um caso de polícia.
— Ah, os policiais. Os que nos levaram presos eram da minha idade. Eram horrivelmente malcriados. Nos prenderam com algemas como cães presos às correntes. E não podíamos conversar. E nos arrancaram os maços de cigarro.
— E enquanto isso revistaram o apartamento do traficante?
— Não. Fizeram isso enquanto estávamos fora. Lá dentro eles precisam de muita calma para jogar tudo no chão. Eles desarrumaram tudo.
— Isto foi há exatamente um ano. Desde então você não se viu novamente tentada?
— Não, já saí dessa.
— Já esteve no Bahnhof Zoo?
— Bahnhof Zoo é um lugar muito querido. A cena muda constantemente. Bahnhof Zoo está em toda parte. Naquela época éramos nós que estávamos lá e depois mais ninguém. Não tenho vontade de chorar quando passo por lá.
— Você foi uma espécie de Joana d'Arc do cenário das drogas nos anos 80. Você sobreviveu e superou. Nunca sentiu necessidade de ajudar os viciados?
— Não, nunca me senti responsável pelos outros. Cada um deve saber o que está fazendo.
— Você nunca se viu como um ídolo, como símbolo de esperança para os desesperados?
— Eu achava sempre engraçado ler isso nos jornais. Nunca me senti como ídolo. Aquela era outra pessoa.
— Esta pessoa, a famosa Christiane F., foi convidada do chefe da Editora Diógenes, de Zurique, durante oito semanas. Como peça de exposição na alta sociedade?
— Eu já me sentia aceita. Anna Keel, esposa de Daniel Keel, dono da editora, me telefonara em Berlim me convidando para ir a Zurique. Após um ano, fui para lá. Eles me trataram como a uma filha. Não faltou muito para que eu os chamasse de mamãe e papai.
— E papai e mamãe também pediram algo a você?
— Os dois filhos recebem sempre um programa cultural do qual eu também devia participar.
— Como é que devia? Isso era controlado?
— Sim, durante o jantar.
— E como era o programa?
— Já começou em Berlim, quando Anna me apanhou. Então tive de ir com ela assistir à peça de Tchekov, "As Três Irmãs". E foi muito legal. O cenário tinha árvores de verdade. Durou quatro horas...
— E em Zurique?
— Lá eu também tinha de ir ao teatro. Deveria assistir a algo tipicamente suíço. Mas era falado em alemão. Fui ver a farsa "A Loucura Nua". Horrível. Era um cenário de várias portas, por onde as pessoas viviam entrando e saindo. Tchekov pelo menos era um tipo alegre. Isso eu sei porque tenho livros dele.
Aos 23 anos, Christiane F., com o corpo de uma colegial e o rosto que não revela todos os sofrimentos vividos, deplora a prostituição e diz que foi a pior coisa por que passou. Não quer repeti-la. Até porque, segundo ela, já está velha.
— E o que mais constava do programa cultural suíço?
— Bem, estivemos em Roma e conhecemos o Fellini. Nós o vimos filmando e depois almoçamos em Cinecittà.
— E em que língua conversavam?
— Em inglês. Mas gostaria muito de aprender italiano.
— E por que não aprende?
— Não tenho tempo.
— Não tem tempo? Mas você nem trabalha. Deveria ter bastante tempo para estudar.
— Eu deveria pensar nisso. Mas estudar sozinha em casa é que não dá. Eu preciso sempre de alguém que me puxe. Sou preguiçosa.
— Em Zurique você também conheceu o famoso escritor Friedrich Duerrenmatt?
— Eu não queria conhecê-lo. Eu o detesto por causa das leituras na escola.
— Quantas vezes você leu seu livro Christiane F.?
— Talvez umas três vezes. Sempre tentava fazer como se não fosse eu aquela ali. Também queria saber por que os outros gostavam tanto do livro.
— E quais os outros livros de que gosta?
— O "Grosskotz", de Mathias Nolte. E "Cream Train", de Andrea Carlo. São os meus preferidos.
— Agora você está novamente em Berlim, sem o apoio da família. Mas também não vive sozinha. Trouxe um amigo de Zurique, um palestino de Israel.
— Samir vai embora daqui a pouco. Para mim ainda é difícil encontrar um companheiro. A maioria se deixa tiranizar por mim. Quando eles começam a fazer o que eu gostaria, então não os respeito mais. E além disso, veja este aqui. Fuma quatro maços de cigarro por dia. Impossível. Eu já fumo quatro maços de cigarro. Isso é demais. E me irrita muito quando alguém faz a barba, deixando a água escorrer pela torneira, pois isso é desperdício. Ou quando alguém usa meia garrafa de detergente para lavar uma xícara. Os produtos de limpeza da casa poluem o meio ambiente tanto quanto a indústria.
— Você agora é uma verde?
— Infelizmente, os verdes não são profissionais, pois brigam entre si. Além do mais, assusta qualquer um quando surge um barbudo.
— Preceitos bem pequeno-burgueses...
— Mas deste jeito eles não conseguem votos suficientes.
— Você já discutiu com os verdes?
— Não, detesto discussões.
— O que é mais interessante do que discutir?
— Assistir à televisão, de preferência deitada na cama. Não aguento ler jornal. Na música, nada me interessa. Se todos vão para Tina Turner, não tenho que ir também. Prefiro grupos amadores.
— Ouve com walkman?
— Ele foi roubado, como tudo. Fui roubada por uma amiga. Cristina. Ela levou tudo. Cosméticos, roupas, xícaras e pratos e 700 marcos alemães. Também não gostaria mais de ter dinheiro. Não sei lidar com dinheiro, sou muito boa. Vivo no mundo errado, com amigos errados. Mas não posso mudar nada.
— Não tem ninguém a quem pudesse recorrer, se não estivesse bem?
— Não.
— E sua mãe?
— Não sei o que dizer à minha mãe.
— Você não está aborrecida por ter interrompido os estudos?
— Não. O Daniel Keel também interrompeu. Estudo está fora de moda. Aprende-se tudo em seis meses e depois a gente é explorada.
— Você é pelo menos tão antiquada a ponto de cozinhar para si?
— Não sei cozinhar e, se não tiver nada pronto, não como.
— Existe algum tipo de mulher que você gostaria de ser?
— (Longa pausa). Eu acho que também não sou ruim.
— Então você não tem planos?
— Quando faço planos e eles fracassam, fico deprimida. Por isso não tenho desejos nem sonhos.
— Como você imagina o amanhã?
— Não marco nada com ninguém com prazo maior do que uma semana.
— E as férias?
— Quando quero viajar, então compro a passagem e vou.
— Então você acabou de vir da tranqüila vida familiar na Suíça de volta à terrível Alemanha...
— Quando viemos de Zurique, tivemos que fazer baldeação em Hanover. Estava usando um costume rosa e um pano vermelho e puxava o carrinho das malas. Todos pareciam embasbacados.
— ... da Christiane, da oprimida...
— E eu fiquei furiosa e meu amigo dizia para eu tirar o pano. Mas me recusei, pois quero que as pessoas fiquem ainda mais abobadas.
— E o que fazer para conseguir isso?
— Levei muito tempo tentando esclarecê-las. Acabei desistindo. E, quando cismo, tento bestificá-las, o que elas aceitam passivamente. Não gosto mais das pessoas.
— Mas também não gosta de ficar sozinha.
— Eu odeio isso. Quando meu amigo voltar para Israel, me ligo para alguém vir para cá morar comigo.
— Medo da solidão? Ou de que mais?
— Bem, tenho um trauma de trens. Sempre penso que quando morrer será sob um trem.
O FUTURO, PARA CHRISTIANE, TEM NO MÁXIMO UMA SEMANA DE DURAÇÃO
No pequeno apartamento, o caótico ambiente em que um caixão é utilizado à guisa de armário, e Bruce Lee, como Kung-Fu, um dos ídolos cultuados.
— Você ganhou muito dinheiro com seu livro e comprou este apartamento. Onde ficou o resto do dinheiro? E quanto há aqui no caixão?
— Não, aí tenho todas as minhas contas.
— Então está dura no momento?
— Estou falida. Tenho de pagar 65% de imposto...
— ... o que você esqueceu de fazer.
— E quando entra dinheiro eles retiram logo para a receita. Até meu telefone está interceptado. Não paguei o condomínio e outras coisas...
A identidade de uma menina/mulher que o mundo conhece pelo avesso: Vera Christiane Felscherinow.
— E como quer ganhar dinheiro no futuro?
— Não posso imaginar que trabalhar seja um prazer. Eu me sinto sempre muito mal quando alguém me pergunta em que trabalho. Como as pessoas olham sem compreensão quando a gente diz que não trabalha. Não conseguem entender que amigos vivem de amigos. Provavelmente ainda não estou madura o suficiente para saber o que quero.
— Mas o que você gostaria de fazer?
— Eu gostaria mesmo é de ter um asilo particular para animais. Mas meus amigos são contra. Dizem que não devo jogar minha inteligência fora em algo assim. Eu deveria fazer algo que mudasse o mundo.

































