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15/10/2026

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Christiane F.: Entrevista Revista Emma - Julho 1980

Christiane F. 1980
Em Julho de 1980 Christiane F. concedeu uma entrevista para a Revista Emma.

Ela tinha 18 anos e falou sobre estar limpa das drogas e sobre sua identificação com o movimento punk que foi surgindo na Alemanha no final dos anos 70.

A foto ao lado foi tirada em 1980 por Ilse Ruppert.

A matéria está digitalizada no site da Revista Emma, e abaixo está a transcrição:



Entrevista Christiane F.
Entrevista Christiane F.
Entrevista Christiane F.

É assim que Christiane F. pensa hoje


Há dois anos e meio, Christiane F. contou sua história — a história de uma viciada em heroína — em uma fita gravada. Dois jornalistas então produziram, a partir desse material, uma série para a revista Stern e o livro Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída... (Wir Kinder vom Bahnhof Zoo), que imediatamente se tornou um best-seller.

Afinal, era a primeira vez que uma dependente química, alguém que havia vivido aquilo, contava para um grande público como tudo realmente era visto de dentro. Como é, de fato, quando se experimenta drogas pela primeira vez aos 12 anos, começa a se injetar aos 13 e consegue dinheiro para sustentar o vício através da prostituição infantil.

Quando Christiane contou essa história, a sua própria história, ela tinha 16 anos, havia acabado de passar por uma desintoxicação e estava firmemente decidida a conseguir se manter longe das drogas dessa vez.

Eu queria saber se ela tinha conseguido e como estava agora. Como vivia hoje e o que pensava. Então fui até o pequeno vilarejo em Schleswig-Holstein onde ela vive atualmente e, quando toquei a campainha, ela também estava chegando: recém-chegada de Berlim.

Seu namorado Wolfgang, que também havia sido dependente químico, tinha vindo com ela. Christiane havia feito com ele uma “turnê turística” pela cena — da discoteca Sound até a Bahnhof Zoo. Eu queria saber como aquilo tinha sido para ela.

“Eu mesma estou surpresa com o quanto consegui lidar bem com isso”, resumiu Christiane sobre a viagem de fim de semana.

Ela me leva até seu apartamento no porão — dois cômodos pequenos, cozinha, banheiro, aconchegante, com uma lareira aberta, que ela quase nunca usa — “ele vive soltando fumaça, ainda não entendi como funciona”.

Ela ainda não mora ali há muito tempo. Até se mudar, vivia sob o regime rígido da avó e da tia-avó. Há dois anos e meio Christiane está “clean”, livre das drogas. Ela está fazendo um curso profissionalizante para trabalhar como livreira e fará a prova final em junho.

Ingrid: Como você conseguiu tudo isso?
Christiane: Bem, minha tia e minha avó me ajudaram muito. Morei com elas durante dois anos e elas controlavam tudo. Quando eu fazia alguma coisa que não podia, levava uma bronca daquelas. Elas são tão cabeça-dura que simplesmente não cedem, não se resignam — nem mesmo minha avó. Então não me restava alternativa a não ser passar por aquilo. Aquilo já era uma espécie de terapia, no sentido daquilo que fizeram comigo. Durante um ano eu fiquei completamente desaparecida da face da Terra, eu só estava no meio da natureza e coisas assim. Só depois de um ano me atrevi a voltar um pouco para a cidade. Agora estou me virando bem. Também já nem falo mais sobre drogas. Não penso mais nisso.

Ingrid: Mas você não é uma exceção enorme? A maioria não consegue, muito menos sem terapia.
Christiane: Não sei. Em algumas coisas sou diferente das outras pessoas. Mas quando estou junto de ex-viciados, como com minha amiga Stella, por exemplo, na república onde ela mora, então existe uma identificação total. Quando estou com eles, percebo que, entre os ex-viciados, sou um caso completamente normal. Assim, não estou propriamente integrada de maneira normal à sociedade, mas também não estou na subcultura. Continuo sempre na subcultura.

Ingrid: Em qual subcultura?
Christiane: No movimento New Wave e Punk. Mesmo sem usar o cabelo espetado.

Ingrid: Por que justamente Punk?
Christiane: É, eu também não sei por quê. Mas justamente no nosso grupo não tem nenhum Sponti [jovens de estilo engomado da época] ou algum comedor de muesli alternativo. Embora alguns sejam um pouco pirados. Uma vez, uma criança teve um ataque e empurrou um carrinho de bebê com a irmã dentro. Mas acho que o fato de termos aderido tanto ao punk tem muito a ver com termos enxergado o mundo de uma maneira diferente por causa de algumas músicas muito bonitas. Robert Long ou Wolfgang Ambros — isso é música para estudantes intelectuais ou para pessoas que estão meio que numa viagem nostálgica, usando saias compridas e chapéus engraçados. Nós conhecemos o mundo de outra maneira. Como isso pode ser uma merda! Acho tão irreal e idiota quando você vai a um show e ouve aqueles estranhos concertos de flauta, essas coisas completamente esquisitas. Eu simplesmente percebi que o mundo é, no fundo, terrivelmente merda, e que muita gente engana a si mesma e engana os outros quando fica tagarelando sobre todas essas coisas bonitas. Essas conversas sobre qualquer coisa são tão mentirosas e tensas. Quando alguma coisa não combina comigo, então eu grito e pronto. Algumas pessoas podem achar isso primitivo, mas assim consigo lidar melhor com os meus problemas, quando os exponho de maneira clara e direta e não coloco grandes slogans por cima nem faço sessões descoladas em colchões. Tudo isso passa longe da realidade.

Ingrid: E o que você gosta tanto no punk hoje?
Christiane: A cena punk está longe de ser tão fechada em si mesma e irreal quanto outros grupos de jovens. Os *Poppers*, por exemplo, são incrivelmente tensos nas relações entre homens e mulheres. Consigo me lembrar de uma época em que as garotas ficavam do lado de fora da discoteca completamente desarrumadas, porque a maquiagem tinha escorrido, e queriam desesperadamente se maquiar de novo. E todas aquelas fotos na *Bravo* de seus ídolos, nas quais elas se agarram. Isso é tão irreal, porque criam para elas um mundo de sonhos. Toda vez fico irritada porque elas não percebem o quanto estão sendo enganadas. Entre os punks, as garotas geralmente se vestem de maneira completamente diferente das garotas da sociedade normal. Para mim, a maioria das garotas punk parece assexuada, embora no começo eu tenha resistido a isso. Mesmo assim, entre os punks, achei algumas mulheres bastante atraentes que antes talvez considerasse um pouco repulsivas. Ultimamente, tenho me interessado por garotas que usam a cabeça raspada, porque aí você consegue perceber como elas realmente são bonitas, sem esse símbolo sexual. É simplesmente impressionante como existem poucos casais punk. Nós, garotas, somos bastante integradas, mesmo que isso nunca seja discutido diretamente. Pode muito bem acontecer de duas garotas serem abordadas por algum cara e nós ficarmos tão irritadas com isso que acabamos com ele. Na parede está pendurada uma foto de um garoto que parece tão feminino que poderia ser confundido com ela.


Christiane vai cozinhar espaguete. “Espaguete instantâneo.” Seu namorado, no entanto, cozinha “de verdade”, conta ela. A mãe dele lhe ensinou, porque considera importante que um homem também saiba cuidar de si mesmo. Christiane acha que, se todas as mães pensassem assim, as filhas teriam uma vida mais fácil.


Ingrid: Como era isso naquela época, quando você ainda se injetava? Você acha que as garotas começam a usar drogas por motivos diferentes dos garotos?
Christiane: Sim, na maioria das vezes. As mulheres dos usuários sempre acham que precisam cuidar do destino do namorado, que precisam necessariamente tomar conta dele. Querem salvá-lo ou ser suas mães. E aí elas próprias começam a usar também. Até porque, de outra forma, o relacionamento não duraria muito. Existe uma distância grande demais quando um se droga e o outro não. E aí elas não querem desistir do relacionamento. O fato de eu sequer ter tomado consciência disso vem do que observei na minha mãe. A maneira como ela se defendeu do marido. Ela foi reprimida por ele durante muito tempo. Em algum momento, ela tentou nos mostrar que aquilo não era certo. Quando criança, eu aprendi muitíssimo com isso. Quando alguém manda em vocês, vocês revidam e não se deixam enganar — esse era o lema dela. Eu, no entanto, fui injetada durante muito tempo pelas minhas colegas de escola com essa história de ser delicada e boazinha e tudo mais. Ainda hoje às vezes me sinto meio idiota quando Wolfgang dirige o carro o tempo todo e eu fico sentada ao lado.

Ingrid: O que você acha do movimento feminista?
Christiane: Acho que as mulheres punk são as que colocam isso em prática. No movimento feminista existem muitíssimas teóricas que ficam teorizando sem parar... Eu conheci uma fotógrafa que era uma feminista cem por cento e que também tinha problemas — acho. Tudo o que ela dizia fazia sentido, mas eu achava aquilo simplesmente horrível, tão rígido. Quando você olhava a publicidade com os traseiros e peitos, aí você nem podia olhar para aquilo. Eu não tenho vontade de estragar a minha vida por causa disso. Se você realmente praticasse tudo aquilo que está escrito no movimento feminista, poderia simplesmente esquecer a vida. Aí você fica ali isolada e marginalizada...


Na mesa de livros há alguns livros feministas. Sobre a nova Emma que eu trouxe para ela, ela fica contente; acha o título “realmente engraçado”: “Dieta na cabeça”. Mas isso também não é realmente um problema para ela, porque ela também não está mais tão magra quanto nos “bons e velhos tempos de viciada”; ela continua ganhando alguns quilos a mais na balança. O que vem daí — o fato de às vezes simplesmente esquecer de comer. Só quando começa a sofrer com cólicas estomacais é que se lembra de comer.

"Isso é uma merda que ainda guardei da época em que me injetava." Dois anos e meio sem drogas é pouco tempo.



Ingrid: Você enfatizou no seu livro que nunca desistiu completamente de si mesma. Mas se uma pessoa ainda conserva o orgulho, então tudo não é apenas metade tão ruim?
Christiane: Sim, com certeza. No momento em que o orgulho desaparece, você chega ao estágio em que tudo é indiferente. Ainda sei como Stella e eu juramos nunca deixar qualquer homem nos explorar. E, salvo pouquíssimas exceções, mantivemos isso. Nós nos prostituíamos juntas, fazíamos tudo o que era possível por dinheiro, mas não nos deixávamos explorar. Eu nunca deixei de lutar enquanto ainda estava usando. Garotas que abrem as pernas e nem sequer pensam muito no que está acontecendo são, em geral, garotas que se entregaram muito rapidamente. Mas justamente Stella e eu fizemos muitíssimo disso. Stella, antes de começar a se prostituir, foi estuprada. Ela já não tinha vontade nenhuma daquilo; para ela, todas as vezes era um risco enorme quando precisava fazer alguma coisa. Injetar-se é bom e bonito, quer dizer, o corpo se desintegra, mas isso interessa menos. O pior é conseguir o dinheiro. É incrivelmente importante nunca desistir, não se rebaixar. É isso que não gosto em algumas terapias: elas destroem completamente qualquer sentimento de autoestima e acreditam que depois podem reconstruir um novo. Acho bastante notável quando alguns usuários ainda preservam um pouco de autoestima. Posso dizer por mim mesma que isso funcionou para mim. E também faz parte disso o fato de eu não me arrepender de nada.

08/10/2026

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Morte de Babsi, amiga de Christiane F., no jornal The New York Times, 1978

Babsi, amiga de Christiane F.
Babette Döge, a Babsi amiga de Christiane F. Ela parecia ter bem mais que 14 anos, não é mesmo?


Em 09 de Janeiro de 1978, o Jornal The New York Times, dos Estados Unidos, repercutiu a matéria publicada uma semana antes na Alemanha pela Revista Der Spiegel e citou a morte de Babsi, amiga de Christiane F. em uma matéria sobre a epidemia de vício em drogas pesadas em Berlim. Confira o artigo abaixo:



Morte de Babsi, amiga de Christiane F., no jornal The New York Times

O aumento das mortes relacionadas às drogas leva o governo de Berlim Ocidental a iniciar programa contra as drogas

9 de janeiro de 1978



BERLIM OCIDENTAL, 8 de janeiro — Antes de Ingo Hillmer aplicar a injeção fatal, escreveu uma carta de despedida para sua mãe. “Eu sei que você quer me ajudar”, disse o estudante de 15 anos, “mas não há mais nada que ninguém possa fazer”.

O jovem e uma garota de 14 anos, Babette Döge, foram as vítimas mais jovens do boom das drogas que tomou conta desta cidade no último ano. O número de mortes relacionadas às drogas subiu em 1977 para 84, contra 56 no ano anterior e apenas 9 em 1971. Segundo especialistas, a taxa de mortalidade é maior do que em cidades comparáveis da Alemanha Ocidental, como Munique, onde 16 mortes foram registradas no ano passado. Em Nova York, são cerca de 700 por ano.

Diante da preocupação pública, o Governo de Berlim Ocidental está prestes a criar um programa de combate à heroína de 4 milhões de dólares e nomeou um psicólogo de 31 anos, Wolfgang Heckmann, como administrador. Ele espera estabelecer uma rede de instalações, desde equipes de atendimento nas ruas até clínicas, para combater o problema das drogas. “Vai ser um trabalho difícil”, disse ele, “sem nenhum sucesso fácil à vista”.

O crescimento do mercado de drogas é atribuído ao que as autoridades chamam de “conexão turca”, o tráfico de drogas canalizado a partir de regiões produtoras de ópio na Turquia, no Irã e no Afeganistão.



Caminhões diretamente da Turquia

“Dia após dia, fileiras de caminhões chegam aqui da Turquia”, disse Gerhard Ulber, chefe da divisão de combate aos narcóticos da polícia de Berlim Ocidental. “Grandes quantidades de heroína costumam estar escondidas entre latas de vegetais ou outras mercadorias legítimas”.

Ele disse que a droga também era contrabandeada a bordo de voos fretados programados quase diariamente para os 75 mil trabalhadores turcos e suas famílias que vivem em Berlim Ocidental. “Realizamos controles”, disse ele, “mas é impossível verificar todo mundo”.

O tráfico de heroína proveniente do Sudeste Asiático é insignificante. Um quilo da droga — cerca de 2,2 libras — vale entre 60 mil e 70 mil dólares no atacado.

Segundo Ulber, a heroína do Oriente Médio chega em sua forma pura, uma indicação de que laboratórios ilegais operam nos países produtores. Laboratórios na Europa Ocidental, por exemplo, em Marselha, há muito foram eliminados, disse ele. A heroína é obtida por meio de processos farmacêuticos a partir da morfina, que, por sua vez, é obtida das papoulas de ópio.

O policial responsável pelo combate aos narcóticos disse que os traficantes e intermediários eram quase exclusivamente turcos e reconheceu que a polícia tinha dificuldade para se infiltrar na comunidade turca. Três traficantes cumprem penas de prisão que variam de sete a nove anos, mas a maioria dos detidos nas operações são dependentes que atuam no comércio para sustentar o próprio vício.

A polícia havia registrado até então 1.600 dependentes, mas as estimativas variavam entre 3 mil e 10 mil. Ulber disse que havia pelo menos 3 mil, sem contar os visitantes. Enquanto ele falava, uma mãe de Bremen telefonou, implorando que ele procurasse seu filho de 17 anos, um dependente desaparecido de casa. “Tudo bem, vou mandar alguém ao hotel que você mencionou”, disse ele à mulher. “Se o encontrarmos, avisaremos você”.

A fácil disponibilidade da droga nesta metrópole extensa e o fluxo de pessoas sem residência fixa vindas de outros lugares são vistos como fatores que contribuem para a alta taxa de mortalidade, mas parece não haver uma explicação simples.

O professor Friedrich Bschor, da Universidade Livre, especialista em controle de narcóticos, afirmou em um estudo recente que “o alto risco de mortalidade relacionada às drogas em Berlim é equivalente ao registrado em cidades americanas”.

Ele disse em uma entrevista que o aumento do número de mortes em 1977 foi “quase sem paralelo”, apresentando uma taxa de mortalidade de 4,2 por 10 mil habitantes e 20 por mil dependentes.

O Dr. Bschor disse que os suicídios propriamente ditos, como o de Ingo Hillmer, representavam 10% dos casos que havia estudado. Seu instituto não apenas acompanha a situação das drogas, mas também atende uma carteira de 500 dependentes. Ele disse que a alienação das grandes cidades contribuía para a taxa de mortalidade.

“Muitos desses jovens passam de um quarto em ruínas para outro e, frequentemente, em situações de emergência, ninguém se atreve a pedir ajuda porque as pessoas presentes também são dependentes”, disse ele. No ano passado, 34 vítimas foram encontradas mortas em locais públicos, em parques, banheiros públicos ou no metrô. Das 84 pessoas mortas, 22 eram mulheres.

“O que você diz a uma jovem prostituta de rua que afirma precisar tomar sua dose diária porque, caso contrário, não consegue suportar a vida?”, perguntou outro especialista em drogas, Adolf Straub, acrescentando que a maioria dos dependentes — com idades entre 16 e 25 anos — não estava disposta a procurar tratamento e ser registrada. “É aí que precisamos do novo programa, para conversar com essas pessoas de maneira informal e motivá-las”, disse ele.

O professor Bschor afirmou que os alemães frequentemente eram inflexíveis ao lidar com o problema, em contraste com os Estados Unidos, onde, segundo ele, “prevalecem métodos de tentativa e erro, e programas malsucedidos são abandonados em favor de novas abordagens”. A associação médica da Alemanha Ocidental havia recentemente reafirmado o antigo método de tratamento por abstinência em alas psiquiátricas.

Segundo o Dr. Bschor, não havia planos para introduzir drogas substitutas, como a metadona, nem os alemães pretendiam seguir o exemplo britânico de disponibilizar heroína oficialmente. “Não estamos convencidos de que a taxa diminua de forma apreciável com esses métodos”, disse ele.

Organizações privadas de combate às drogas originárias dos Estados Unidos, como a Synanon, atuam em Berlim Ocidental, mas o professor Bschor afirmou que elas precisavam ser complementadas por uma rede de centros locais.

Em um projeto de autoajuda, seu instituto organiza viagens de carro — uma delas foi uma jornada pelo Saara — para ex-dependentes de narcóticos. “Descobrimos”, disse ele, “que, nesses novos campos de experiência, muitos dos pacientes considerados de pouca força de vontade e com pouca capacidade de resistência nas condições convencionais desenvolveram graus inesperados de atividade e iniciativa”.

Fonte: The New York Times

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05/10/2026

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Christiane F.: o que aconteceu com ela?

Christiane F., Christiane Vera Felscherinow, em sua vida adulta
Para muita gente, a história de Christiane F. termina onde termina Eu, Christiane F. – 13 Anos, Drogada e Prostituída: depois da heroína, da prostituição na estação Bahnhof Zoo e da morte de alguns de seus amigos, Christiane é enviada para longe de Berlim na tentativa de se livrar definitivamente das drogas.

Mas Christiane tinha apenas 15 anos quando sua história começou a ser conhecida pelo público. Quando o livro Wir Kinder vom Bahnhof Zoo foi publicado na Alemanha, em 1978, praticamente toda a sua vida adulta ainda estava por acontecer.

E aconteceu muita coisa.

Nas décadas seguintes, Christiane Felscherinow viveu entre diferentes cidades e países, participou do meio artístico e musical de Berlim, enfrentou novas recaídas, passou um período na prisão, viveu durante anos na Grécia, tornou-se mãe e, mais de três décadas depois do livro que a tornou mundialmente conhecida, decidiu contar o restante da história.

Então, afinal, o que aconteceu com Christiane F. depois de Bahnhof Zoo? E o que sabemos sobre ela hoje? Abaixo, algumas imagens dela em 1981, três anos após o lançamento do livro:

Christiane F. depois dos anos de Bahnhof Zoo
Christiane Vera Felscherinow em sua vida adulta
Christiane F. depois do sucesso de Wir Kinder vom Bahnhof Zoo




A história de Christiane F. não terminou quando ela deixou Berlim

No final de Eu, Christiane F., existe uma sensação de encerramento. Depois de várias tentativas fracassadas de abandonar a heroína, Christiane é afastada de Berlim e da cena de drogas que fazia parte de sua vida cotidiana.

Na vida real, porém, não existiu um final simples.

Christiane conseguiu passar períodos longe da heroína, mas sua vida adulta foi marcada por um ciclo muito mais complicado de estabilidade, recaídas e novas tentativas de reconstrução.

Ao mesmo tempo, a publicação do livro transformou uma adolescente que até então era praticamente desconhecida em Christiane F., um nome reconhecido muito além da Alemanha.

A situação se tornou ainda maior com o lançamento, em 1981, do filme Christiane F. – Wir Kinder vom Bahnhof Zoo. Sua história passou a pertencer também à cultura popular — algo de que Christiane jamais conseguiria se separar completamente.

Christiane F., autora de Mein zweites Leben




Christiane F. nos anos 1980

A vida de Christiane nos anos seguintes foi muito diferente da imagem congelada da adolescente que ficou conhecida através do livro e do filme.

Christiane F. nos anos 1980
Christiane Felscherinow no início de sua vida adulta
Ela circulou pelo cenário alternativo alemão, conviveu com artistas e músicos e tentou construir uma identidade própria dentro daquele ambiente. Por alguns anos, Christiane não foi apenas a garota cuja história havia se transformado em livro e filme: ela também participou ativamente da cena underground do início dos anos 1980, experimentando trabalhos ligados à música e ao cinema.

No cinema, apareceu em Neonstadt, de 1981, filme alemão em episódios sobre jovens e a vida urbana, e posteriormente em Decoder, produção experimental ligada à contracultura e à cena musical industrial. O filme reuniu nomes como FM Einheit, Genesis P-Orridge e William S. Burroughs e se tornou uma obra cult daquele universo artístico.

Essa fase ajuda a mostrar uma Christiane bem diferente daquela eternizada nas fotografias de Bahnhof Zoo. Já adulta, ela circulava por uma Berlim alternativa em que música, performance, cinema independente e experimentação artística se misturavam — um ambiente no qual sua história pessoal era apenas uma parte de uma identidade que ela ainda tentava construir.

Christiane F. no filme experimental Decoder
Christiane Felscherinow em Decoder
Christiane F. no filme Neonstadt
Christiane Felscherinow em cena no filme Neonstadt
Christiane F. no período de Neonstadt e da cena artística dos anos 1980
Foi também nesse ambiente que a música ganhou um espaço maior em sua vida. No início dos anos 1980, Christiane se relacionou com Alexander Hacke, músico ligado à cena experimental de Berlim e integrante do Einstürzende Neubauten. Juntos, os dois formaram o projeto Sentimentale Jugend.

O Sentimentale Jugend fazia parte de uma cena muito distante do pop convencional. Christiane participou do projeto cantando e tocando guitarra, enquanto Hacke trabalhava com voz, instrumentos e programação. Em setembro de 1981, os dois chegaram a se apresentar no Festival Genialer Dilletanten, em Berlim, encontro que se tornaria uma referência da cultura underground alemã daquele período.

A passagem pelo Sentimentale Jugend é especialmente interessante porque mostra Christiane tentando ocupar um espaço artístico por conta própria. Para quem a conhece apenas pelo livro e pelo filme, é fácil esquecer que, no começo dos anos 1980, ela também fazia parte de uma rede de músicos, cineastas e artistas experimentais que ajudou a definir uma face muito particular de Berlim Ocidental.

Christiane F. no projeto musical Sentimentale Jugend


A experiência musical não terminou com o Sentimentale Jugend. Em 1982, Christiane também lançou gravações em seu próprio nome e sob o nome artístico Christiana.

Entre esses trabalhos estão os maxi-singles Gesundheit! e Final Church. Gesundheit!, creditado a Christiane F., inclui Wunderbar e Heimweh. Já Final Church, lançado como Christiana, traz Süchtig, Spinnen e Health Dub. As gravações dialogam com a Neue Deutsche Welle, o synth e o experimentalismo industrial que circulavam pela cena alemã do início daquela década.

Alexander Hacke e outros músicos ligados àquele circuito participaram dessas gravações. Por isso, Sentimentale Jugend, Gesundheit! e Final Church não são apenas curiosidades na biografia de Christiane: eles ajudam a situá-la dentro da cultura alternativa da Berlim dos anos 1980, muito além da imagem pública criada por Wir Kinder vom Bahnhof Zoo.

A carreira musical foi curta, mas deixou registros que continuam circulando entre colecionadores e interessados na música experimental alemã. Futuramente, o Estação Zoo vai dedicar posts separados ao Sentimentale Jugend, ao Gesundheit! e ao Final Church, reunindo gravações, contexto e informações sobre cada projeto.

Mas os problemas com drogas continuaram fazendo parte de sua vida.

Em meados da década de 1980, Christiane enfrentou problemas com a Justiça relacionados a drogas e, em 1986, recebeu uma sentença de dez meses de prisão.

Christiane F. durante os anos 1980
Christiane Vera Felscherinow em sua vida adulta
Christiane F. após a fama de Wir Kinder vom Bahnhof Zoo
No ano seguinte, sua vida tomou outro rumo: em 1987, ela deixou a Alemanha e foi viver na Grécia, onde permaneceu até 1993.

A mudança representava mais do que uma simples troca de endereço. Depois de anos em que seu nome esteve ligado à imprensa alemã, à cena artística e também a novos problemas relacionados às drogas, viver fora da Alemanha oferecia a possibilidade de uma rotina menos diretamente conectada à personagem pública “Christiane F.”.

Foram anos importantes justamente porque pertencem a uma parte de sua biografia muito menos conhecida do grande público. A adolescente de Bahnhof Zoo já havia ficado para trás havia muito tempo, mas a fama criada por aquela história continuava acompanhando a mulher adulta.

Christiane Felscherinow durante o período em que viveu na Grécia
Christiane F. durante sua vida adulta


Era mais uma tentativa de construir uma existência distante da personagem pública que havia se formado ao redor do nome Christiane F.



Christiane F. tornou-se mãe

Depois de retornar à Alemanha, aconteceu uma das maiores mudanças de sua vida.

Em 1996, Christiane teve um filho.

Anos mais tarde, ao falar sobre essa fase, ela deixaria claro o tamanho da importância que a maternidade teve para ela. Durante muitos anos, mãe e filho viveram juntos e Christiane tentou construir uma rotina muito diferente daquela que havia conhecido durante a adolescência.

A maternidade também acrescentou uma dimensão nova à forma como Christiane passou a falar sobre a própria vida. A menina que havia crescido em meio a conflitos familiares, drogas e instabilidade agora precisava assumir o papel de mãe e tentar oferecer ao filho uma experiência diferente da sua.

Essa tentativa não apagou seus problemas anteriores nem produziu uma vida sem recaídas, mas se tornou um dos eixos mais importantes de sua história adulta — e ocuparia um espaço central quando Christiane finalmente decidiu narrar essa segunda parte de sua vida em livro.

Christiane Felscherinow com seu filho


A relação, porém, também atravessou um período extremamente difícil.

Em 2008, depois de uma tentativa de mudança para Amsterdam, autoridades alemãs intervieram e seu filho passou para os cuidados do serviço de proteção à juventude. O episódio se tornaria uma das partes mais dolorosas relatadas posteriormente por Christiane sobre sua vida adulta.

Quando voltou a falar extensamente com a imprensa em 2013, seu filho já era jovem. Christiane dizia manter contato com ele e falava sobre a relação entre os dois com evidente importância em sua vida.



Ela conseguiu abandonar as drogas?

Essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis de responder sobre Christiane F. — justamente porque sua história não cabe facilmente em um simples “sim” ou “não”.

A dependência química continuou acompanhando diferentes períodos de sua vida.

Christiane F. em 1995


Christiane teve recaídas, passou também por longos períodos sem usar heroína e entrou em um programa de substituição com metadona.

Em entrevistas concedidas em 2013, ela dizia estar longe das drogas pesadas, embora continuasse no programa de metadona. Falava também abertamente sobre o consumo de álcool e ocasional de cannabis.

Sua trajetória adulta, portanto, desmonta uma interpretação confortável da história de Bahnhof Zoo: a de que afastar Christiane de Berlim teria produzido uma recuperação definitiva.

A realidade foi muito mais longa, irregular e difícil.

Talvez seja justamente por isso que a história de Christiane continue tão relevante. Dependência não costuma funcionar como nos filmes, com uma última cena capaz de separar claramente o “antes” e o “depois”.

Christiane F. na estação Bahnhof Zoo em Berlim
Christiane Felscherinow na Bahnhof Zoo
Christiane F. na vida real, anos depois de Wir Kinder vom Bahnhof Zoo
Christiane Vera Felscherinow em 2005
Christiane F. em 2011




O segundo livro de Christiane F.

Durante décadas, milhões de pessoas conheceram detalhadamente a adolescência de Christiane, mas sabiam relativamente pouco sobre tudo o que aconteceu depois.

Isso mudou em 2013.

Ao lado da jornalista Sonja Vukovic, Christiane publicou Mein zweites Leben — Minha Segunda Vida — uma autobiografia dedicada justamente aos anos posteriores a Wir Kinder vom Bahnhof Zoo.

Em Minha Segunda Vida, Christiane F. contou o que aconteceu depois da história que a tornou famosa: relacionamentos, drogas, viagens, maternidade, perdas, saúde e as consequências de passar praticamente toda a vida sendo reconhecida como a menina de Bahnhof Zoo.

O lançamento provocou uma nova onda de interesse internacional.

Mais de três décadas depois, Christiane voltou a conceder entrevistas e aparecer diante das câmeras. Para uma nova geração, era a oportunidade de descobrir a mulher que existia por trás da adolescente eternizada nas fotografias dos anos 1970.

O segundo livro também mudou a perspectiva da própria narrativa. Se Wir Kinder vom Bahnhof Zoo registra uma adolescência comprimida em poucos anos de acontecimentos extremos, Mein zweites Leben acompanha as consequências durante décadas. A fama, as recaídas, os relacionamentos, a maternidade e a saúde deixam de ser um epílogo e passam a formar uma história própria.

É justamente por isso que os dois livros se complementam. Um explica como Christiane F. se tornou um dos rostos mais conhecidos da história das drogas na Alemanha; o outro mostra o peso de continuar vivendo depois que aquela imagem já havia se tornado praticamente impossível de abandonar.

Christiane F. em 2013 na época de Mein zweites Leben




Os problemas de saúde de Christiane F.

Durante essa reaparição pública em 2013, Christiane também falou abertamente sobre sua saúde.

Na época, ela afirmou sofrer de uma grave cirrose hepática e falou sobre os efeitos de décadas de dependência e do tratamento com metadona.

É importante colocar essa informação em seu contexto: essas declarações foram feitas por Christiane em 2013. Não existem informações médicas públicas recentes suficientes para transformar esses relatos antigos em um diagnóstico sobre seu estado de saúde atual.

O que ficou evidente naquele período é que Christiane já encarava sua própria história de maneira muito diferente da adolescente retratada em Wir Kinder vom Bahnhof Zoo.

No texto “Christiane F.: a vida apesar de tudo”, reunimos justamente outro olhar sobre essa sobrevivência e sobre a mulher que continuou existindo depois que o mundo passou a conhecê-la apenas como “Christiane F.”.



Christiane F. se afasta novamente da vida pública

A volta aos holofotes durou pouco.

Em janeiro de 2014, poucos meses depois do lançamento de Mein zweites Leben, Christiane anunciou que estava novamente se afastando da vida pública.

A intensa atenção da imprensa havia se tornado difícil de suportar. Sua coautora, Sonja Vukovic, explicou na época que o estado de saúde de Christiane havia piorado e que era necessário livrá-la da pressão provocada pela enorme quantidade de solicitações de entrevistas e aparições públicas.

O afastamento ajuda a explicar algo que ainda hoje provoca curiosidade: por que sabemos tão pouco sobre a vida atual de Christiane F.?

Em grande parte, porque ela escolheu não continuar vivendo publicamente.

Christiane F. durante uma entrevista




O episódio de 2015 em Berlim

Isso não significou que seu nome desapareceu completamente da imprensa.

Em 2015, Christiane voltou às manchetes por um motivo bastante diferente. Uma ocorrência em Berlim terminou com acusações de que ela havia agredido um cachorro e mordido uma mulher.

O episódio recebeu atenção da imprensa alemã e rapidamente repercutiu justamente porque qualquer notícia envolvendo Christiane ainda carregava o peso de sua história.

Mas acontecimentos isolados como esse não significaram um retorno regular à mídia. Depois da divulgação de seu segundo livro e do afastamento anunciado em 2014, suas aparições públicas tornaram-se muito mais raras.

Christiane F. em Berlim em 2015
Christiane Felscherinow em 2015




Christiane F. ainda está viva?

Sim. Não há informação confiável de que Christiane Felscherinow tenha morrido.

Essa pergunta aparece com frequência porque Christiane sobreviveu a circunstâncias extremamente perigosas desde muito jovem — e porque vários personagens conhecidos através de Wir Kinder vom Bahnhof Zoo morreram ainda jovens.

Também contribui para essa dúvida o fato de ela ter praticamente desaparecido da exposição pública depois de 2014.

Isso, porém, nos leva a uma distinção importante: estar fora da imprensa não significa estar desaparecida.

Christiane simplesmente deixou de oferecer ao público o mesmo acesso à sua vida que existiu em outros momentos.

Por isso, buscas como “Christiane F. morreu?”, “Christiane F. está viva?” ou “onde está Christiane F. hoje?” frequentemente levam a informações antigas apresentadas sem contexto. Até que exista uma fonte confiável em sentido contrário, não há base para afirmar que Christiane Felscherinow tenha morrido.



Onde está Christiane F. hoje?

Aqui é necessário separar informação de especulação.

Existem reportagens, sites e textos na internet que apresentam detalhes sobre Christiane como se fossem informações atuais, embora muitas vezes estejam apenas repetindo entrevistas ou notícias publicadas muitos anos antes.

Por isso, não é correto afirmar com precisão onde Christiane vive, como está sua saúde ou como é sua rotina atual sem uma fonte recente e confiável.

O que sabemos é que, depois de passar grande parte da vida tendo seus problemas mais íntimos transformados em assunto público, Christiane optou por uma existência muito mais reservada.

Isso não significa que não tenham surgido registros posteriores. Há, por exemplo, imagens de Christiane em 2019 ao lado do músico Petra. Registros desse tipo mostram que ela não simplesmente “desapareceu”, mas são muito diferentes de uma volta regular à imprensa e não permitem reconstruir sua vida privada atual.

Christiane F. em 2019 com a musicista Petra


Por isso, fotografias ocasionais, notícias antigas republicadas e informações sem data não devem ser tratadas como um retrato de sua situação hoje. Quando não existe uma declaração recente da própria Christiane ou uma fonte jornalística confiável, o mais correto é reconhecer o limite do que realmente sabemos.

E talvez seja importante respeitar essa fronteira.

Christiane F. em 2015
Christiane F. na Bahnhof Zoo em 2015
Christiane Felscherinow em Berlim em 2015




Christiane F. depois de Christiane F.

Existe uma ironia particular na história de Christiane Felscherinow.

Aos 14 anos, ela contou sua vida a dois jornalistas porque eles estavam investigando a situação de adolescentes envolvidos com drogas em Berlim Ocidental. Aqueles depoimentos deram origem a uma reportagem, depois a um livro e finalmente a um fenômeno internacional.

A adolescente cresceu. A imagem pública, não.

Durante décadas, novas gerações continuaram encontrando a mesma Christiane nas páginas do livro: 12, 13, 14 anos; Gropiusstadt; Sound; Detlef; Bahnhof Zoo; heroína.

Enquanto isso, Christiane Felscherinow envelhecia fora daquelas páginas.

Sua vida posterior não foi uma história perfeita de recuperação, mas também não pode ser resumida às recaídas. Houve viagens, relacionamentos, experiências artísticas, períodos de estabilidade, maternidade, perdas, doenças e tentativas sucessivas de viver além da identidade que lhe foi atribuída ainda adolescente.

Quem quiser acompanhar suas próprias palavras ao longo dos anos também pode consultar nosso arquivo de entrevistas de Christiane F., que reúne diferentes momentos de sua trajetória.

No fim, talvez os dois livros contem duas metades inseparáveis da mesma história.

Eu, Christiane F. contou ao mundo como uma adolescente de Berlim se tornou Christiane F.

Mein zweites Leben mostrou algo que o primeiro livro jamais poderia contar: o que significou passar o resto da vida sendo Christiane F.

Leia mais sobre Christiane F.:
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03/10/2026

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Morte de Babsi, amiga de Christiane F., na revista Der Spiegel, 1978

Babsi, amiga de Christiane F.
Imagem de Babsi que aparece no livro "Eu, Christiane F, 13 anos, drogada, prostituída..." ("Wir Kinder vom Bahnhof Zoo")


Em 01 de Janeiro de 1978, a Revista Der Spiegel citou a morte de Babsi, amiga de Christiane F. em uma matéria sobre a epidemia de vício em drogas pesadas em Berlim. A matéria ressalta que este tipo de substância era mais consumida entre crianças e adolescentes do que entre jovens mais velhos e universitários, e que o número de overdoses fatais era preocupante. Confira o artigo abaixo:





DROGAS: A capital dos viciados em heroína

Morte de Babsi na revista Der Spiegel, 1978
Em nenhuma grande cidade europeia a taxa de mortalidade por drogas, medida pelo número de dependentes, é tão alta quanto em Berlim Ocidental. Mesmo na fortaleza das drogas nos EUA, Nova York, ela é mais baixa.

01/01/1978, 13h00 • da DER SPIEGEL 1/1978



Babette Döge, 14 anos, cravou a minúscula cânula de morfina, calibre 18, na mão esquerda. Quando a encontraram, as pontas dos dedos estavam, segundo o laudo, "ligeiramente ressecadas", e a base das unhas, arroxeada. A seringa descartável ainda estava presa na veia.

Sete vezes seguidas, o estudante Ingo Hillmer, 15 anos, tão viciado em drogas quanto a jovem, aplicou uma dose de heroína nas veias cicatrizadas. Nenhum dos dois sobreviveu à tortura.

Babette, no vício da agulha há meio ano, tinha injetado uma overdose que seu organismo fragilizado não pôde suportar. O garoto pálido de cabelos na altura dos ombros tinha, na gíria dos viciados, dado intencionalmente o "tiro de ouro" — a última aplicação, sem retorno.

"Eu sei, mãe", foram suas palavras de despedida, "você quer me ajudar, mas ninguém mais pode me ajudar."

Assim como não foi possível ajudar as duas vítimas de drogas mais jovens deste ano em Berlim, ninguém pôde ajudar os outros. Até meados da semana passada, já eram 84 os dependentes de drogas que morreram de forma semelhante desde janeiro — um aumento de 30 em relação a 1976, quase o mesmo número de todas as mortes registradas entre 1971 e 1975 somadas.

E há tempos as listas vêm sendo feitas: o desempregado Günther Hackbarth, 27, que nem a terapia da controversa associação Narconon nem a Caritas conseguiram afastar do veneno — vítima nº 37; Sabine Virkus, 17, filha de um comerciante de ferragens, que restaurava molduras para um mercado de pulgas — vítima nº 51; a garçonete Manuela Stanke, 23, que caiu silenciosamente do banco em um cinema erótico — vítima nº 57; o DJ Jens Karlin, 25, encontrado sem vida pela equipe de limpeza urbana no banheiro feminino — vítima nº 65.

Na cena das drogas, sufocando a comoção, diz-se então que eles "bateram as botas", "deram o fora", "zeraram o marcador". E para muitos, como bem desconfiam, esse é o seu próprio prognóstico. Cientistas projetaram que os dependentes de Berlim têm uma expectativa de vida vinte vezes menor em comparação com jovens da mesma idade não viciados. A morte programada dos marginalizados transformou a antiga metrópole na "capital dos dependentes" (Die Zeit). Em nenhuma grande cidade europeia a taxa de mortalidade, proporcional ao número de dependentes em risco, é tão constante e elevada.

Mesmo Nova York, o bastião das drogas com 49.000 viciados, fica para trás. Lá, conforme estimativas do especialista em drogas e médico legista de Berlim, Professor Friedrich Bschor, morrem em média de seis a sete em cada 1.000 dependentes por ano; em Berlim, são mais de 20. A "mortalidade relativa" dos dependentes químicos na cidade atingiu, segundo Bschor, um pico que não encontra paralelo na "literatura científica internacional".

Atualmente, o fenômeno berlinense está sendo analisado cientificamente. O doutorando em medicina Sigurd Junge, da equipe de Bschor, analisa os 88 casos de anos anteriores até 1975. Ele investiga as "trajetórias no vício", as etapas das vítimas nessa rua de mão única da dependência. Compara a estrutura social das vítimas e questiona a quem as relações familiares destruídas facilitaram a queda na subcultura: como esperado, à grande maioria. Bons contatos com os pais só puderam ser reconstruídos, com muito custo, em um a cada dez casos.

Primeiros resultados do grupo liderado pelo cientista Bschor:

- Em um terço dos casos, foi possível comprovar suicídio premeditado. Movidas por um aparente beco sem saída, as vítimas aplicavam o "tiro de ouro", misturavam drogas e psicotrópicos ou saltavam da janela em direção ao abismo — o que ocorreu em pelo menos oito casos, predominantemente após o consumo de LSD, a droga da moda na época.

- Quase um terço das vítimas vinha de fora da cidade apenas para suprir suas necessidades de consumo. Pouco tempo depois, eram encontradas — às vezes "em estado de torpor", às vezes "em estado de decomposição adiantada" (segundo o relatório policial), em comunas de viciados ou no andar superior de um ônibus da linha 62.

Antigos viciados em risco de recaída que passaram por curtos períodos de desintoxicação (no jargão: Stolper-Clean) também correm risco de morte iminente, segundo o levantamento de Junge. O corpo desintoxicado não tolera mais as doses antigas, resultando frequentemente em overdose de opiáceos. Assim, cinco das 88 vítimas morreram logo após receber alta da desintoxicação clínica, quatro após fugirem de instituições fechadas de volta para a cena, e seis logo após saírem da prisão ou durante uma saída temporária.

Os dependentes também estão expostos a acasos perigosos devido às peculiaridades do mercado de drogas. O produto misturado por grandes negociantes ou pequenos traficantes (na gíria: "as formigas") e batizado com glicose, ácido ascórbico, lactose ou até mesmo, como se suspeita, estricnina para maximizar os lucros tem uma pureza completamente imprevisível. Amostras recentes de heroína em Berlim revelaram concentrações que variavam entre 15% e 50% — uma diferença fatal até para os viciados mais experientes, o que provavelmente aconteceu: quando sete dependentes morreram na mesma semana durante o inverno, a polícia criminal de Berlim atribuiu o fato principalmente à variação do grau de pureza da mercadoria colocada em circulação.

O fato de o mercado negro de drogas de Berlim ser atrativo não apenas para os moradores locais, apesar de tanta incerteza, deve-se à sua grande fartura. Comparado a Frankfurt, Munique, Hamburgo ou às filiais em pequenas cidades do sul da Alemanha, ele ocupa uma "posição de destaque", segundo especialistas da Polícia Federal Criminal (BKA).

Diversas operações policiais comprovaram isso: quando havia escassez em outros lugares ou quando a mercadoria era reduzida artificialmente para inflacionar os preços, em Berlim ainda havia oferta. O preço cobrado pelos traficantes por um grama de heroína atualmente, suficiente para dez a vinte aplicações, varia entre 220 e 250 marcos.

Desde que a Polícia Criminal constatou que quase 80% das drogas pesadas vêm do Oriente Médio, os especialistas preveem uma expansão ainda maior: a consolidação de um centro de distribuição internacional de drogas. A polícia teme que se encontrem mulas em número suficiente entre os 75.000 trabalhadores imigrantes turcos e, ainda mais, entre os cerca de 5.000 compatriotas que vivem ilegalmente na cidade.

Para quem entra na cidade, não existe apenas a rota conhecida do aeroporto central da Alemanha Oriental, Schönefeld, via trem urbano (S-Bahn) e metrô (U-Bahn). Até o tráfego de voos charter em Tegel tem dado dor de cabeça à fiscalização alfandegária. O diretor do setor em Berlim, o conselheiro governamental Joachim Frank, afirma: "Veja só como, de três aviões, desembarcam 500 turcos com sacos e caixas, recebidos por 3.000 compatriotas."

A própria homogeneidade da cena consumidora de Berlim — presente até nos estabelecimentos prisionais, onde, segundo estimativas não oficiais elevadas, pelo menos 15% dos detentos são viciados — favorece esse cenário. Os mandantes do tráfico continuam desconhecidos; apenas os pequenos distribuidores são capturados. Seja no "corredor do tráfico" (entre a Tauentzienstrasse, a Igreja Memorial e o Café Kranzler, no lado direito da Ku'damm), seja nas estações de metrô de Gropiusstadt, na região do Lehniner Platz ou em áreas verdes como o Jahnpark, bem ao lado do monumento ao venerável pai da ginástica — os investigadores de narcóticos de Berlim ainda não conseguiram dar o grande golpe.

Os 1.600 infratores registrados apenas na Polícia Criminal, que caem na malha fina a cada um ano e meio em média, garantem tribunais lotados. No entanto, isso quase não contribuiu para diminuir a oferta de drogas.

Além disso, a estrutura da cena mudou radicalmente nos últimos anos: a vanguarda acadêmica da cannabis foi sucedida por imitadores proletários, mas com substâncias mais pesadas. A maior parte dos estudantes secundaristas e universitários que, desde meados dos anos 1960, associavam suas experiências arriscadas com tragadas de maconha a um protesto difuso contra o mundo hostil ("estar chapado, ser livre, o terror tem que fazer parte") não fez a transição para as drogas pesadas. Esse espaço foi ocupado por alunos do ensino fundamental, operários e desempregados.

Na lista de mortos dos anos de 1971 a 1975, revelou o estudo de Junge, constam os nomes de apenas cinco estudantes universitários ativos, enquanto há 17 jovens operários. Do depoimento de "Schrippe", decorador de profissão e uma das primeiras vítimas das drogas em Berlim: "Meus pais são separados e, claro, a merda da minha mãe fez bobagem de novo. Ligou aqui para Berlim dizendo que tinha ouvido falar das injeções. Fez um teatro, é claro. Eu disse que só tinha tomado comprimidos de Dicandit, que isso era inofensivo, coisa de criança."

Em 1970, ele e um amigo saquearam o armário de remédios controlados de uma farmácia. O perito do tribunal elogiou seu "estado psíquico no momento equilibrado", e o juiz suspendeu a pena sob custódia probatória — mediante a promes a de que ele permaneceria longe das drogas. Dois dias depois, ele morreu após uma aplicação.

Seu amigo, apelidado de "Typ", declarou após dar entrada no hospital: "Eu dei a picada nele. Todos nós tomamos uma dose. No começo, ficamos conversando sobre como a droga era boa. De repente, ele ficou em pé na porta e caiu duro no chão."

Frequentemente, os rumos no caminho para as drogas são traçados ainda na infância. Helmut, por exemplo, teve seu primeiro registro policial aos 12 anos. O marinheiro de uma embarcação fluvial o denunciou por ter jogado na água os cabos de amarração do seu barco a motor. Nove dias depois, uma funcionária do Conselho Tutelar registrou as queixas da mãe ("ela só tem desgosto com ele") e abriu um processo: "Início do acompanhamento". O boletim escolar do mesmo ano acrescentou novos fatos: "Devido à desobediência e falta de veracidade, precisou ser repreendido com severidade com frequência." Quatro anos depois, os pais se divorciaram. Os peritos oficiais anotaram então: "Forte automatismo de marginalização". Dois contratos de aprendizagem foram interrompidos.

Nessa época, ele entrou em contato com as drogas e surgiram as primeiras condenações. A última carta para a mãe ("Por favor, não pense que eu fui sempre mau, lembre-se também das coisas boas") ele escreveu da prisão: "Quando fui preso, tinha tomado mais de 20 'trips', e acho que algo deve ter pifado no meu cérebro. Vejo bichos rastejando o tempo todo e, quando tento pegar, eles somem, ou vejo algo se mexendo quando está parado." Ele já tinha acumulado cinco tentativas de suicídio quando, finalmente libertado de novo, tomou a dose fatal.

E, assim como Helmut, quase metade dos afetados tem no histórico tentativas de desintoxicação — em casa, na prisão ou em um dos diversos centros de apoio e clínicas especializadas de Berlim Ocidental. O dependente Hackbarth, por exemplo, consultou o diretor do centro de apoio da Caritas, Berndt-Georg Thamm, cerca de 60 vezes — no fim das contas, sem sucesso.

Cinco semanas antes de sua morte por overdose, um psiquiatra deu o seguinte parecer sobre a viciada berlinense Ariane: "Existem indícios de boa vontade, mas ela está socialmente destruída." E sua agente de liberdade condicional, que conseguiu para a livreira de formação um emprego em uma livraria ("Os primeiros clientes eram traficantes") e uma internação em uma clínica psiquiátrica de Berlim Ocidental ("Bormies Ranch"), declarou: "Tivemos que assistir impotentes à sua decadência."

De qualquer forma, a ajuda pública, com ou sem sucesso, é escassa. É verdade que a Secretaria de Saúde de Berlim deve liberar 8,6 milhões de marcos em um programa de emergência para criar novos cargos e expandir clínicas e centros de apoio especializados. Porém, o experiente especialista em drogas Thamm sabe que um "certo tributo em sangue" continuará sendo cobrado.

Os novos e jovens integrantes da cena, os viciados adolescentes registrados apenas em 56 escolas de Berlim — eles são, diz Thamm, "os mortos pelas drogas dos anos oitenta".

Fonte: Der Spiegel

Veja matérias sobre Christiane F. em outras revistas:
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23/09/2026

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Entrevista com Babsi (Babette Doge, amiga de Christiane F) em 1977

Entrevista com Babsi
As imagens de arquivo e a história de Babsi foram destacadas em retrospectivas históricas como "Berlim - 1977: O Ano do Destino" (dirigido por Lutz Pehnert), que é frequentemente exibido como um especial do rbb24 Reportage / rbb AKTUELL.

A reportagem inclui gravações de áudio e vídeo históricas altamente emocionantes, onde Babsi (Babette Doge, amiga de Christiane F), com 13 ou 14 anos, fala sobre suas tentativas de melhorar de vida, estudar e se tornar manicure.

A intervenção fracassada: Os segmentos da RBB apresentam entrevistas com seu ex-assistente social, Horst Römer. Ele relata tê-la levado a uma clínica de terapia rigorosa, nos moldes dos EUA, no norte da Baviera. Como a clínica usava um método severo para tratar os pacientes (incluindo obrigá-la a cortar o cabelo comprido em até duas horas após a chegada), ela se recusou a ficar e voltou para Berlim.



Confira abaixo a transcrição da entrevista:

Repórter: Quantos anos tem?
Babsi: 14.

- E desde quando se pica?
- Um ano e meio.

- Quanto ganha por dia?
- Bem, uns 100 marcos.

- De onde tira o dinheiro?
- Me prostituindo. Quer dizer, eu me prostituo.

- Como é que entrou nisso?
- Depois que fui a uma discoteca e tive contato com todas as pessoas de lá e foi aí que comecei com haxixe, então com comprimidos, e depois os comprimidos tornaram-se chatos. Eu dei uma cheirada, certo? E depois comecei a me picar. Sim, é claro que os meus pais ficaram extremamente zangados e desapontados comigo, isso é claro. Bem, e prometi-lhes que estava limpa e agora quero tentar construir uma vida boa para mim e ir para a escola, depois formar-me e depois quero muito ser manicure.



Contexto sobre Babette "Babsi" Döge:

Babsi tornou-se mundialmente famosa postumamente através do livro autobiográfico (Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída...) "Wir Kinder vom Bahnhof Zoo" e da subsequente adaptação cinematográfica de 1981, que narra a vida de sua amiga íntima, Christiane F.

A Overdose: Em 19 de julho de 1977, com apenas 14 anos, Babsi morreu de overdose de heroína em Berlim Ocidental. Na época, foi amplamente noticiado como a vítima mais jovem das drogas em Berlim Ocidental, tornando-se um símbolo duradouro da epidemia de heroína na cidade na década de 1970.

Laços Familiares: Notavelmente, após o suicídio de seu pai biológico, sua mãe casou-se novamente com o pianista de jazz Eugen Cicero. O famoso músico alemão de swing Roger Cicero, já falecido, era seu meio-irmão.

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