14/09/2026

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Christiane F.: curiosidades sobre o filme de 1981

Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída... é um daqueles filmes que parecem ter sido feitos com uma preocupação quase documental. Filmado em locações reais de Berlim e contando com a participação de David Bowie, o longa dirigido por Uli Edel acabou se tornando uma das obras mais conhecidas sobre a juventude e o consumo de drogas na Berlim Ocidental dos anos 1970.

Mas existem muitos detalhes sobre a produção que passam despercebidos durante o filme.
Christiane F. olha cartaz de David Bowie




Alguns figurantes eram pessoas que realmente viviam nas ruas


As cenas da Sound, da Bahnhof Zoo e de outros locais movimentados precisavam de muitas pessoas para criar a atmosfera da Berlim daquela época.

Segundo informações reunidas sobre a produção, vários dos figurantes e participantes que aparecem ao fundo nessas sequências eram jovens que realmente viviam naquele ambiente, incluindo pessoas envolvidas com drogas e prostituição.

A escolha ajudava a dar às cenas uma aparência muito mais natural. Em vez de todos os personagens secundários parecerem atores interpretando um determinado tipo de pessoa, muitos daqueles rostos pertenciam a pessoas que conheciam de perto aquele universo.

Isso também ajuda a explicar por que algumas cenas do filme têm uma aparência tão próxima de um registro documental.

Inclusive, Catherine Schabeck, a amiga de Christiane F. vida real que no livro ela chama de Stella, faz uma ponta no filme como uma traficante que vende heroína a Detlev. Logo abaixo tem imagens dela no filme!
Catherine Schabeck no filme Christiane F.
Catherine Schabeck no filme Christiane F.




O nome de Detlev


No livro e na vida real, o namorado de Christiane F. Se chamava Detlef, com um "f" no final. Porém no filme, o personagem se chama Detlev, com um v. Dizem por aí que isso é porque ele não gostou muito da publicação da história... mas a versão oficial é que "Detlef" e "Detlev" são simplesmente duas variantes ortográficas diferentes do mesmo nome. Em alemão, nomes terminados em um som consonantal suave podem alternar a grafia final entre "-f" e "-v" sem alterar a pronúncia ou o significado.




Natja Brunckhorst quase entrou em um carro com um homem de verdade


Essa talvez seja uma das histórias mais impressionantes das filmagens.

Em uma entrevista, Natja Brunckhorst, que interpretou Christiane F., contou uma situação que aconteceu durante a gravação de uma cena na Kurfürstenstraße, região associada à prostituição de rua em Berlim.

Na sequência, Christiane aparece sozinha esperando alguém buscá-la. Como a cena foi filmada com uma lente longa, a equipe de câmera estava bastante distante da atriz.

Um carro se aproximou e Natja começou a se preparar para entrar.

Foi então que ela percebeu, pelo canto do olho, membros da equipe correndo em sua direção e gritando para que ela não entrasse.

O motivo?

O motorista não era um ator!!!

Ele aparentemente havia achado que a atriz era uma prostituta de verdade e estava tentando abordá-la.

Natja tinha apenas 13 anos na época. Mais tarde, Natja Brunckhorst observou em entrevistas que aquele momento aterrorizante foi seu primeiro confronto real e não roteirizado com as realidades sombrias da personagem que ela interpretava.

A situação mostra de maneira bastante perturbadora o quanto as filmagens se misturavam com a realidade das ruas de Berlim naquele período.
Christiane F., o filme




A cena de David Bowie foi filmada em Nova York


David Bowie aparece no filme durante a sequência de seu concerto, mas existe uma curiosidade: a apresentação não foi filmada em Berlim.

As cenas do show foram gravadas em outubro de 1980, no Hurrah Club, em Nova York.

Naquele momento, Bowie estava trabalhando na Broadway e se apresentava várias noites por semana. Por isso, Uli Edel precisou aproveitar sua passagem pela cidade para filmar as cenas.

O interior do clube foi preparado para parecer uma casa noturna de Berlim.

E há outro truque interessante: parte das imagens da enorme multidão que aparece no filme foi aproveitada de imagens de um show do AC/DC realizado na então Alemanha Ocidental.

Ou seja, aquela sequência aparentemente filmada como um único concerto é, na realidade, resultado de diferentes elementos reunidos na montagem.
David Bowie no filme Christiane F.




A relação de Christiane F. com David Bowie era ainda mais importante


Bowie não está no filme simplesmente porque sua música combinava com a atmosfera da história. A presença do cantor tinha uma relação direta com a própria história de Christiane F.

O filme utiliza várias músicas de Bowie e o cantor aparece em uma sequência de concerto. A participação ajudou inclusive a aumentar a visibilidade do longa.

Existe ainda um detalhe particularmente importante: segundo o livro que deu origem ao filme, Christiane teve seu primeiro contato com heroína depois de assistir a um show de David Bowie.

Esse acontecimento acabou sendo incorporado à narrativa cinematográfica.

Por isso, Bowie funciona no filme quase como uma ponte entre dois mundos: de um lado, o universo da música e da juventude de Berlim; de outro, a trajetória cada vez mais destrutiva de Christiane e seus amigos.
Natja Brunkhorst e David Bowie




Babsi realmente morreu aos 14 anos


Babsi, uma das amigas mais próximas de Christiane no filme, não é apenas uma personagem inventada para a história.

A jovem retratada no livro e no filme realmente existiu, era amiga de Christiane F. e morreu em 1977, aos 14 anos, vítima do consumo de drogas. Seu nome era Babette Tatjana Döge (1963 – 1977).

A morte da adolescente chamou a atenção da imprensa alemã. O jornal Berliner Zeitung publicou uma reportagem de capa sobre o caso, apresentando Babsi como a mais jovem vítima das drogas em Berlim.

A morte de Babsi, juntamente com a posterior publicação de Wir Kinder vom Bahnhof Zoo, contribuiu para chamar a atenção pública para o problema do consumo de drogas entre adolescentes.

É um dos motivos pelos quais a história de Christiane F. acabou ultrapassando o âmbito de uma autobiografia e se transformou em um retrato de uma geração.

Logo abaixo, Christiane F. e Babsi no filme:
Natja Brunkhorst e Christiane Reichelt no filme Christiane F.


Babsi da vida real:
Babsi da vida real




O filme tem alguns pequenos erros de continuidade


Mesmo sendo um filme extremamente cuidadoso em sua ambientação, algumas pequenas falhas podem ser encontradas.

Uma delas acontece na Bahnhof Zoo (Estação Zoo do metrô de Berlim).

Depois que Christiane encontra dois amigos dentro da estação, os três saem à procura de Detlev. Um dos amigos, Axel, aparece usando uma calça jeans clara e larga dentro da estação. Na tomada seguinte, já do lado de fora, a calça aparentemente se transforma em um modelo escuro e mais justo.

É uma daquelas pequenas coisas que provavelmente passam completamente despercebidas durante o filme.
Christiane F e -Axel




E existe um detalhe curioso na trilha sonora


Em determinado momento, Christiane aparece ouvindo um álbum de David Bowie, ChangesOneBowie.

Porém, a música que ouvimos na cena é "Helden", a versão alemã de "Heroes".

O problema é que "Helden" não faz parte daquele álbum.

É um detalhe pequeno, mas especialmente curioso para um filme tão fortemente associado à música de Bowie.
ChangesOneBowie Christiane F




Nem tudo sobre a abstinência mostrada no filme é totalmente realista


Outro ponto frequentemente discutido é a maneira como o filme representa a abstinência de heroína.

As cenas são extremamente fortes e mostram sintomas físicos muito intensos. Embora a abstinência de opioides possa ser bastante severa, algumas das manifestações físicas apresentadas no cinema podem ser consideradas exageradas.

Por outro lado, o filme consegue mostrar de maneira bastante eficaz outro aspecto da dependência: a compulsão e a dependência psicológica, especialmente quando os personagens voltam a usar drogas mesmo depois de tentarem parar.

É justamente esse ciclo que torna várias partes da história tão perturbadoras.
Christiane F. detox




Um detalhe que escapou na montagem


Existe ainda um erro particularmente curioso.

Em uma cena, quando Christiane e Detlev descobrem que um de seus amigos morreu, ela olha chocada para o corpo.

Logo depois, a câmera mostra um close do braço e do abdômen do personagem.

Só que, segundo espectadores que observaram atentamente a cena, é possível perceber o abdômen se movimentando.

O personagem que deveria estar morto aparentemente ainda estava respirando.

Um pequeno erro de filmagem que acabou passando pela edição final.




A dedicatória no final do filme


Talvez um dos detalhes mais importantes esteja justamente nos créditos finais.

O filme é dedicado a:

Andreas W. “Atze” (1960–1977), Axel W. (1960–1977), Babette D. "Babsi" (1963–1977) e a todos os outros que não tiveram sorte ou força para sobreviver.

A dedicatória deixa explícito que as mortes retratadas na história não eram apenas elementos dramáticos de um roteiro.

Havia pessoas reais por trás daqueles nomes.
Dedicatória no final do filme Christiane F., a Babsi, Axel e Atze




O próprio filme faz uma ressalva sobre a Sound


Outro detalhe interessante aparece nos créditos.

A produção agradece à equipe da Discoteca Sound e faz uma observação de que a discoteca havia se tornado um dos pontos de encontro de jovens mais interessantes do mundo, mas ressalva que a cena de drogas mostrada no filme não correspondia à situação da Sound naquele momento.

Isso é particularmente interessante porque o filme acabou associando para sempre a discoteca à história de Christiane F., mesmo anos depois dos acontecimentos retratados.

Quer saber o que aconteceu com a Sound depois? Confira meus outros artigos:

Sound: a discoteca de Berlim frequentada por Christiane F nos anos 70.
A Sound nos anos 1980: como era a discoteca de Christiane F.
A Sound nos anos 2000: a história da discoteca de Christiane F.
A Sound hoje: o que aconteceu com a discoteca de Christiane F.
Sound Dillingen: a nova discoteca ligada à história de Christiane F.



O cinema da Sound também escondia algumas surpresas


Durante as cenas ambientadas na Sound, é possível encontrar filmes passando nas telas do cinema do local.

Entre eles estão dois clássicos:

Nosferatu (1922), de F. W. Murnau.
Night of the Living Dead (1968), de George A. Romero.

São pequenos detalhes de ambientação que ajudam a tornar a Sound mais convincente como um espaço de encontro da juventude.




O filme sofreu cortes em alguns países


A versão exibida no Reino Unido sofreu cortes de 12 segundos para o lançamento nos cinemas.

As versões posteriores em vídeo chegaram a sofrer cortes muito maiores, com mais de cinco minutos retirados, principalmente nas cenas que mostravam a preparação e a aplicação de heroína.

Esses cortes foram posteriormente abandonados em 2000, permitindo o lançamento sem essas alterações nas versões de vídeo e DVD.

Nas versões restauradas em 4K, existe ainda uma alteração curiosa: o logotipo “Stimorol” presente em uma embalagem de chiclete foi desfocado.




A história de Christiane F. continuou aparecendo no cinema


A influência de Christiane F. não terminou com o filme de 1981.

Ao longo das décadas, o título e a personagem foram mencionados ou homenageados em diversos filmes, séries e produções audiovisuais.

Um exemplo particularmente interessante é Climax (2018), de Gaspar Noé. O livro Wir Kinder vom Bahnhof Zoo aparece no filme, e Christiane F. também é mencionada.

Também existem referências ao filme em produções como Berlin Calling (2008), Tarnation (2003), Tiny Furniture (2010) e Alex Anwandter: Rebeldes (2014), entre outras. Abaixo, uma cena do filme Adeus, Lênin (2003) mostra uma TV sintonizada no noticiário, onde se pode ver o corpo de uma jovem vítima de overdose. A jovem se trata de Livia S. Hullin, que aparece em duas páginas do livro de Christiane F. É a mesma cena, em um ângulo diferente.
Livia S Hullin em Adeus Lênin
Livro Christiane F.


A quantidade de referências mostra como Christiane F. acabou se transformando em uma espécie de símbolo cultural associado à juventude, às drogas e à Berlim Ocidental.
Christiane F. o filme



🎬 Curiosidades rápidas


Filme: Christiane F. – Wir Kinder vom Bahnhof Zoo
Diretor: Uli Edel
Ano: 1981
Christiane: Natja Brunckhorst
Detlev: Thomas Haustein
Babsi: Christiane Reichelt
Axel: Jens Kuphal
Stella: Kerstin Richter
Música: David Bowie e outros artistas
Baseado em: Wir Kinder vom Bahnhof Zoo, de Christiane Felscherinow, Kai Hermann e Horst Rieck

10/09/2026

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Christiane F.: entrevista à revista Manchete em 1985

Christiane F. em entrevista à revista Stern em 1985
Em 1985, a extinta Revista Manchete publicou uma entrevista com Christiane F. Em algumas referências, dizem que a matéria foi publicada em 1984, o que não é verdade e essa informação incorreta me deu um pouco de trabalho para achar a publicação. A informação correta é edição 1731, publicada em 22 de junho de 1985.

A matéria foi uma tradução da publicação original da Revista Alemã Stern e foi publicada também em 1985 com a seguinte capa:

Christiane F. na capa da revista Stern em 1985


Edição brasileira da matéria, com uma chamada pra lá de indelicada:
Christiane F. em entrevista à revista Manchete em 1985
Christiane F. em entrevista à revista Manchete em 1985
Christiane F. em entrevista à revista Manchete em 1985
Christiane F. em entrevista à revista Manchete em 1985




Segue abaixo a transcrição da matéria:



Aos 13 anos ela era drogada e prostituída. O livro sobre sua vida foi consagrado como um libelo à sociedade. Mas a verdadeira Christiane F., 10 anos depois, é um exemplo vivo da ausência de pensamentos e de horizontes a que a droga pode levar um ser humano. Parva, imbecilizada, nesta entrevista-verdade ela é um exemplo: não pelo que diz, mas pelo que não sabe dizer.


A verdadeira história de CHRISTIANE F.

23 anos, novamente drogada, já não mais prostituída



Reportagem de Birgit Lahann | Fotos de Gerd Krug e Klaus Meyer-Andersen | Originalmente publicada na Revista Stern

O apartamento, que fica num velho prédio, tem três cômodos e pertence a Christiane Felscherinow, conhecida como Christiane F. Na sala há um sofá de couro, um colchão e um caixão preto. Num dos quartos, uma corda esticada de ponta a ponta e roupa para passar por toda a parte. O francês Bully Claude e um filhote de doberman ocupam o outro quarto, coberto de jornal e todo urinado. "É sua tentativa de transar com o cachorrinho. Volta e meia tenho de separá-los."
Christiane F. em entrevista à revista Stern em 1985

Daqui a poucos dias, Christiane F. fará 23 anos. Tornou-se o símbolo de uma geração viciada. Aos 12 tomava haxixe, aos 13 heroína e aos 14 anos entrou para o pessoal do Bahnhof Zoo (Estação Zoo), uma famosa turma da pesada de Berlim. Mas sobreviveu. Superou os sofrimentos e os vícios. A revista alemã Stern publicou a série "Nós, Crianças do Bahnhof Zoo", que se tornou um livro de sucesso, vendendo milhões de exemplares.

Depois começou a aprender contabilidade numa pequena cidade ao norte da Alemanha. Mas interrompeu o estudo. "Afinal, você só é explorado como aprendiz. Tive a impressão de já saber tudo após seis meses." Tentou ser cantora e chegou a participar de um filme ruim para se autopromover, fazendo o papel de uma go-go girl. E depois viajou sem rumo pelo mundo. Quando filmaram o roteiro sobre sua vida, trabalhou como conselheira. E o filme também se tornou um sucesso, rendendo milhões de marcos.

Depois não se ouviu mais falar dela, até que há um ano foi presa durante uma revista no apartamento de um traficante de heroína. E foi acusada de "aquisição de heroína para uso próprio". Na semana passada, foi a julgamento.

— Christiane, você foi condenada a uma multa de três mil marcos alemães por ter sido apanhada com heroína. O julgamento a surpreendeu?
— Não, eu já sabia. O juiz e os advogados já sabem de antemão qual será o resultado.

— O seu advogado levou um sósia ao tribunal para que você não fosse reconhecida. Você entrou logo em seguida...
— E como eles caíram sobre a gente. Eu me aborreci mais com os jornalistas. Ali a pessoa é apenas uma mercadoria.

— Você declarou no tribunal que jamais tomaria heroína de novo, que teria sido a última vez...
— Você pode ver pelo que eles escreveram. Eu não disse isso. Não posso saber isso agora e passarei por ridícula se acontecer novamente. E então surge outro escândalo, mas aí não fico mais na Alemanha, vou embora.

— E para onde você quer ir, então?
— Ah, talvez a Itália.

— E por que a Itália?
— Lá a vida é muito alegre, todos falam ao mesmo tempo e isso me diverte muito.
Christiane F. em entrevista à revista Stern em 1985

— Por que você teve esta recaída?
— Não sei. Foi o acaso. Quando a gente conhece a sensação que se tem com a heroína, nunca se esquece. É tão boa...

— E acaba em catástrofe. Você já passou por tudo isso: dependência, arranjar dinheiro, roubo, prostituição. E dois de seus amigos morreram por causa da heroína.
— Prostituição foi a pior das coisas e essa nunca mais farei. Afinal, agora também já estou mais velha.

— Mesmo assim você se deixou levar...
— Bem, preferi tomar heroína a beber álcool. Não há droga pior do que o álcool. Mesmo os viciados em heroína não se arrasam tanto quanto os alcoólatras.

— Mas com heroína a descida é mais rápida.
— Bem, a minha recaída não me fez mal. Não me alterei socialmente.

— Mas você voltou a ser um caso de polícia.
— Ah, os policiais. Os que nos levaram presos eram da minha idade. Eram horrivelmente malcriados. Nos prenderam com algemas como cães presos às correntes. E não podíamos conversar. E nos arrancaram os maços de cigarro.

— E enquanto isso revistaram o apartamento do traficante?
— Não. Fizeram isso enquanto estávamos fora. Lá dentro eles precisam de muita calma para jogar tudo no chão. Eles desarrumaram tudo.

— Isto foi há exatamente um ano. Desde então você não se viu novamente tentada?
— Não, já saí dessa.

— Já esteve no Bahnhof Zoo?
— Bahnhof Zoo é um lugar muito querido. A cena muda constantemente. Bahnhof Zoo está em toda parte. Naquela época éramos nós que estávamos lá e depois mais ninguém. Não tenho vontade de chorar quando passo por lá.

— Você foi uma espécie de Joana d'Arc do cenário das drogas nos anos 80. Você sobreviveu e superou. Nunca sentiu necessidade de ajudar os viciados?
— Não, nunca me senti responsável pelos outros. Cada um deve saber o que está fazendo.

— Você nunca se viu como um ídolo, como símbolo de esperança para os desesperados?
— Eu achava sempre engraçado ler isso nos jornais. Nunca me senti como ídolo. Aquela era outra pessoa.

— Esta pessoa, a famosa Christiane F., foi convidada do chefe da Editora Diógenes, de Zurique, durante oito semanas. Como peça de exposição na alta sociedade?
— Eu já me sentia aceita. Anna Keel, esposa de Daniel Keel, dono da editora, me telefonara em Berlim me convidando para ir a Zurique. Após um ano, fui para lá. Eles me trataram como a uma filha. Não faltou muito para que eu os chamasse de mamãe e papai.

— E papai e mamãe também pediram algo a você?
— Os dois filhos recebem sempre um programa cultural do qual eu também devia participar.

— Como é que devia? Isso era controlado?
— Sim, durante o jantar.

— E como era o programa?
— Já começou em Berlim, quando Anna me apanhou. Então tive de ir com ela assistir à peça de Tchekov, "As Três Irmãs". E foi muito legal. O cenário tinha árvores de verdade. Durou quatro horas...

— E em Zurique?
— Lá eu também tinha de ir ao teatro. Deveria assistir a algo tipicamente suíço. Mas era falado em alemão. Fui ver a farsa "A Loucura Nua". Horrível. Era um cenário de várias portas, por onde as pessoas viviam entrando e saindo. Tchekov pelo menos era um tipo alegre. Isso eu sei porque tenho livros dele.

Christiane F. em entrevista à revista Stern em 1985
Aos 23 anos, Christiane F., com o corpo de uma colegial e o rosto que não revela todos os sofrimentos vividos, deplora a prostituição e diz que foi a pior coisa por que passou. Não quer repeti-la. Até porque, segundo ela, já está velha.



— E o que mais constava do programa cultural suíço?
— Bem, estivemos em Roma e conhecemos o Fellini. Nós o vimos filmando e depois almoçamos em Cinecittà.

— E em que língua conversavam?
— Em inglês. Mas gostaria muito de aprender italiano.

— E por que não aprende?
— Não tenho tempo.

— Não tem tempo? Mas você nem trabalha. Deveria ter bastante tempo para estudar.
— Eu deveria pensar nisso. Mas estudar sozinha em casa é que não dá. Eu preciso sempre de alguém que me puxe. Sou preguiçosa.

— Em Zurique você também conheceu o famoso escritor Friedrich Duerrenmatt?
— Eu não queria conhecê-lo. Eu o detesto por causa das leituras na escola.

— Quantas vezes você leu seu livro Christiane F.?
— Talvez umas três vezes. Sempre tentava fazer como se não fosse eu aquela ali. Também queria saber por que os outros gostavam tanto do livro.

— E quais os outros livros de que gosta?
— O "Grosskotz", de Mathias Nolte. E "Cream Train", de Andrea Carlo. São os meus preferidos.

— Agora você está novamente em Berlim, sem o apoio da família. Mas também não vive sozinha. Trouxe um amigo de Zurique, um palestino de Israel.
— Samir vai embora daqui a pouco. Para mim ainda é difícil encontrar um companheiro. A maioria se deixa tiranizar por mim. Quando eles começam a fazer o que eu gostaria, então não os respeito mais. E além disso, veja este aqui. Fuma quatro maços de cigarro por dia. Impossível. Eu já fumo quatro maços de cigarro. Isso é demais. E me irrita muito quando alguém faz a barba, deixando a água escorrer pela torneira, pois isso é desperdício. Ou quando alguém usa meia garrafa de detergente para lavar uma xícara. Os produtos de limpeza da casa poluem o meio ambiente tanto quanto a indústria.

Christiane F. em entrevista à revista Stern em 1985


— Você agora é uma verde?
— Infelizmente, os verdes não são profissionais, pois brigam entre si. Além do mais, assusta qualquer um quando surge um barbudo.

— Preceitos bem pequeno-burgueses...
— Mas deste jeito eles não conseguem votos suficientes.

— Você já discutiu com os verdes?
— Não, detesto discussões.

— O que é mais interessante do que discutir?
— Assistir à televisão, de preferência deitada na cama. Não aguento ler jornal. Na música, nada me interessa. Se todos vão para Tina Turner, não tenho que ir também. Prefiro grupos amadores.

— Ouve com walkman?
— Ele foi roubado, como tudo. Fui roubada por uma amiga. Cristina. Ela levou tudo. Cosméticos, roupas, xícaras e pratos e 700 marcos alemães. Também não gostaria mais de ter dinheiro. Não sei lidar com dinheiro, sou muito boa. Vivo no mundo errado, com amigos errados. Mas não posso mudar nada.

— Não tem ninguém a quem pudesse recorrer, se não estivesse bem?
— Não.

— E sua mãe?
— Não sei o que dizer à minha mãe.

— Você não está aborrecida por ter interrompido os estudos?
— Não. O Daniel Keel também interrompeu. Estudo está fora de moda. Aprende-se tudo em seis meses e depois a gente é explorada.

— Você é pelo menos tão antiquada a ponto de cozinhar para si?
— Não sei cozinhar e, se não tiver nada pronto, não como.

— Existe algum tipo de mulher que você gostaria de ser?
— (Longa pausa). Eu acho que também não sou ruim.

— Então você não tem planos?
— Quando faço planos e eles fracassam, fico deprimida. Por isso não tenho desejos nem sonhos.

— Como você imagina o amanhã?
— Não marco nada com ninguém com prazo maior do que uma semana.

— E as férias?
— Quando quero viajar, então compro a passagem e vou.

— Então você acabou de vir da tranqüila vida familiar na Suíça de volta à terrível Alemanha...
— Quando viemos de Zurique, tivemos que fazer baldeação em Hanover. Estava usando um costume rosa e um pano vermelho e puxava o carrinho das malas. Todos pareciam embasbacados.

— ... da Christiane, da oprimida...
— E eu fiquei furiosa e meu amigo dizia para eu tirar o pano. Mas me recusei, pois quero que as pessoas fiquem ainda mais abobadas.

— E o que fazer para conseguir isso?
— Levei muito tempo tentando esclarecê-las. Acabei desistindo. E, quando cismo, tento bestificá-las, o que elas aceitam passivamente. Não gosto mais das pessoas.

— Mas também não gosta de ficar sozinha.
— Eu odeio isso. Quando meu amigo voltar para Israel, me ligo para alguém vir para cá morar comigo.

— Medo da solidão? Ou de que mais?
— Bem, tenho um trauma de trens. Sempre penso que quando morrer será sob um trem.

Christiane F. em entrevista à revista Stern em 1985
O FUTURO, PARA CHRISTIANE, TEM NO MÁXIMO UMA SEMANA DE DURAÇÃO
No pequeno apartamento, o caótico ambiente em que um caixão é utilizado à guisa de armário, e Bruce Lee, como Kung-Fu, um dos ídolos cultuados.



— Você ganhou muito dinheiro com seu livro e comprou este apartamento. Onde ficou o resto do dinheiro? E quanto há aqui no caixão?
— Não, aí tenho todas as minhas contas.

— Então está dura no momento?
— Estou falida. Tenho de pagar 65% de imposto...

— ... o que você esqueceu de fazer.
— E quando entra dinheiro eles retiram logo para a receita. Até meu telefone está interceptado. Não paguei o condomínio e outras coisas...

Documento de Christiane F.
A identidade de uma menina/mulher que o mundo conhece pelo avesso: Vera Christiane Felscherinow.



— E como quer ganhar dinheiro no futuro?
— Não posso imaginar que trabalhar seja um prazer. Eu me sinto sempre muito mal quando alguém me pergunta em que trabalho. Como as pessoas olham sem compreensão quando a gente diz que não trabalha. Não conseguem entender que amigos vivem de amigos. Provavelmente ainda não estou madura o suficiente para saber o que quero.

— Mas o que você gostaria de fazer?
— Eu gostaria mesmo é de ter um asilo particular para animais. Mas meus amigos são contra. Dizem que não devo jogar minha inteligência fora em algo assim. Eu deveria fazer algo que mudasse o mundo.

14/07/2018

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Raf Simons e a coleção inspirada em Christiane F.

Raf Simons coleção Youth in Motion inspirada em Christiane F.
Em 2017, o estilista belga Raf Simons apresentou uma coleção inspirada no filme Christiane F. (1981), dirigido por Uli Edel. A história já fazia parte do imaginário de Simons desde a época em que ele era estudante, quando teve contato com o livro que deu origem ao filme.

A coleção, batizada de Youth in Motion, levou para as roupas referências bastante explícitas ao universo de Christiane F., incluindo os personagens Christiane e Detlef e elementos associados à cultura das drogas e à juventude marginalizada retratada no filme.

A ideia, no papel, até é interessante. Simons tentou transformar o filme em uma espécie de comentário sobre dependência química, marginalização e a dificuldade de discutir as causas da dependência. Parte da renda da coleção seria destinada a organizações voltadas à recuperação de dependentes químicos.

O problema é que uma boa ideia não salva uma coleção horrorosa.

Visualmente, é difícil olhar para essas peças e pensar em outra coisa além de que o conceito era ser mal feitão mesmo. É só colocar a etiqueta CONCEITO e alguém passa pano e compra.

E compra caro. Mas existem coisas muito mais interessantes para nas quais você pode gastar seus 295 fucking euros. Pegue você uma imagem de Natja Brunckhorst como Christiane F., leve até a gráfica da esquina e peça o transfer mais vagabundo que eles oferecerem. Vai te custar bem menos.

As camisetas, principalmente, parecem ter sido feitas com o mínimo de esforço possível: pega uma imagem do filme, joga uma estampa por cima, coloca o nome de Christiane F. ou Detlef e pronto. Até a gráfica de bairro que faz camiseta de "saudades eternas" provavelmente entregaria mais capricho.

Desfile de Raf Simons com coleção inspirada em Christiane F.
A proposta de usar Christiane F. como referência não é ruim. Muito pelo contrário. Vamos ser sinceros, a gente sabe, Christiane F. is a vibe! O filme tem uma identidade visual fortíssima, uma história conhecida internacionalmente e uma quantidade enorme de elementos que poderiam ter sido explorados de maneira muito mais criativa.

O conceito é interessante. A execução é preguiçosa e pífia.

E esse talvez seja o maior problema da coleção: ela parece depender demais do peso cultural da referência. Como se bastasse estampar Christiane F. em uma peça para que automaticamente aquilo se transformasse em moda, crítica social ou arte.

Não basta.

Uma referência forte exige uma interpretação à altura dela. E, nesse caso, fica a sensação de que Raf Simons encontrou uma história visualmente poderosa, tirou algumas imagens diretamente dela e transformou tudo em uma coleção que parece muito mais interessada em vender o conceito de Christiane F. do que em realmente fazer alguma coisa interessante com ele.

É Christiane F.? É. É uma coleção inspirada no filme? Sem dúvida. É boa? Aí já é outra história.

E, sinceramente, vendo algumas dessas peças, fica difícil não pensar que alguém poderia ter feito muito melhor com o mesmo material.
Coleção Raf Simons inspirada no filme Christiane F. de 1981
Peças da coleção Raf Simons inspirada em Christiane F. e Detlef
Camiseta da coleção Youth in Motion de Raf Simons com referência a Christiane F.
Christiane F. e Detlef na coleção de Raf Simons
Raf Simons Youth in Motion camiseta inspirada em Christiane F.
Raf Simons Christiane F. Youth in Motion coleção de moda

25/01/2016

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Gucci: campanha inspirada no filme Christiane F.

Em 2016, a Gucci apresentou uma campanha de moda que chamou a atenção de quem conhece o filme “Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída...”.

À primeira vista, algumas das imagens podem parecer apenas uma campanha de moda com uma estética vintage, mas as referências ao filme são numerosas — e algumas delas são tão específicas que dificilmente parecem coincidência.




Uma campanha inspirada em Christiane F.


A campanha da Gucci, criada durante a direção criativa de Alessandro Michele, recupera elementos visuais associados ao filme de 1981, dirigido por Uli Edel.

A inspiração aparece não apenas nas roupas, mas principalmente na atmosfera das fotografias: os cabelos vermelhos, os ambientes decadentes, os azulejos, os corredores, as poses e até determinadas situações reproduzem ou lembram cenas bastante conhecidas do filme.



Uma das referências mais evidentes aparece nas imagens que lembram a sequência em que Christiane e seus amigos correm por um centro comercial depois de quebrarem a vidraça de um guichê e roubarem o dinheiro da caixa registradora.

A sequência é acompanhada por “Heroes”, de David Bowie, e termina no terraço do edifício, ao amanhecer.




A maneira desajeitada como os personagens correm, os cabelos compridos e de um vermelho desbotado exatamente como os de Natja Brunkhorst no filme... e toda a atmosfera da cena encontram um paralelo bastante curioso na campanha da Gucci.



A cena do terraço ao amanhecer


Uma das imagens da campanha reproduz especialmente bem a atmosfera da cena do terraço.



No filme, depois da fuga, Christiane e seus amigos chegam ao terraço enquanto a noite começa a dar lugar ao amanhecer.

É uma das imagens mais marcantes de “Christiane F.” e também uma das que melhor representam a estética berlinense que o filme ajudou a transformar em referência cultural.



A cena do banheiro


As referências não ficam restritas à sequência da fuga.

Outra comparação interessante aparece nas imagens que lembram o banheiro onde Christiane injeta heroína pela primeira vez.



No filme, o momento é particularmente importante porque representa a passagem de Christiane de uma experiência inicialmente experimental com as drogas para uma dependência cada vez mais profunda.

A fotografia da Gucci recupera elementos visuais da cena, especialmente a composição da personagem que parece meio triste ou atordoada dentro do espaço.



O ponto de ônibus


Outra fotografia da campanha também lembra uma cena bastante conhecida do filme: o ponto de ônibus.



Mais uma vez, não é apenas a roupa que aproxima as duas imagens. A composição da fotografia e o ambiente contribuem para criar uma associação imediata com Christiane F. O ônibus é idêntico!



Dentro da Bahnhof Zoo


A campanha também levou suas modelos para ambientes que remetem diretamente à Berlim retratada no filme.

Esta fotografia foi feita dentro da Estação Zoologischer Garten, conhecida simplesmente como Bahnhof Zoo — o local que deu nome ao livro e ao filme.



A estação ocupa um lugar central na história de Christiane F. e de seus amigos. Durante os anos 1970, a região ao redor da Bahnhof Zoo tornou-se associada à cena de drogas da Berlim Ocidental e às histórias retratadas posteriormente no livro “Wir Kinder vom Bahnhof Zoo”.

Uma das paredes fotografadas na campanha da Gucci lembra particularmente uma das locações do filme:



Outra comparação curiosa aparece nesta fotografia: a pose da modelo, de costas para o corrimão, me remete a esta foto da Catherine Schabeck, a Stella, amiga de Christiane.



A fotografia original de Stella foi tirada em 1978, durante o período em que a história de Christiane F. começou a ganhar atenção pública.

A semelhança não está necessariamente em uma reprodução exata da fotografia, mas na maneira como a modelo ocupa o espaço e na composição da imagem.



A jaqueta de Christiane F.


E talvez uma das referências mais fáceis de reconhecer esteja nas roupas.

A modelo russa Polina Oganicheva aparece usando uma jaqueta muito semelhante àquela usada por Natja Brunckhorst no papel de Christiane.



A roupa faz com que a referência ao filme fique ainda mais evidente.



Christiane F. encontra a Gucci


A campanha é um exemplo curioso de como a imagem criada pelo filme “Christiane F. – Wir Kinder vom Bahnhof Zoo” ultrapassou o cinema e passou a fazer parte do imaginário visual da cultura pop.

A Gucci não comentou formalmente as comparações diretas, mas especialistas do setor e relatos apontaram que a marca pretendia usar Berlim apenas como um cenário cru, nostálgico e hedonista para capturar uma estética jovem e ousada da cultura pop dos anos 80, em vez de fazer qualquer declaração sobre narcóticos.

Décadas depois da estreia do filme, elementos associados a Christiane F. — os cabelos vermelhos, a Berlim decadente, a Bahnhof Zoo, os clubes, os azulejos, as roupas e a atmosfera da juventude berlinense dos anos 1970 — continuavam sendo reconhecidos o suficiente para servir de inspiração a uma das maiores casas de moda do mundo.

Para quem conhece o filme, algumas das fotografias da campanha parecem quase pequenas recriações de cenas que já vimos na tela.

E talvez essa seja justamente a parte mais interessante: mais de 30 anos depois de Natja Brunckhorst correr pelas ruas de Berlim como Christiane F., a personagem continuava influenciando a moda.

Christiane F. na Gucci. Quem diria?

13/01/2016

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David Bowie morre aos 69 anos: a ligação com Christiane F.

David Bowie nos anos 70


David Bowie era o ídolo de Christiane F.


Na década de 1970, Bowie era um dos grandes ídolos da juventude alternativa de Berlim Ocidental. Christiane F. também era fascinada pelo cantor e por sua música.

No livro Wir Kinder vom Bahnhof Zoo, a presença de Bowie aparece muito antes de sua participação no filme. Christiane acompanhava sua carreira e chegou a assistir a um de seus shows em Berlim.

Foi justamente depois desse concerto que aconteceu um dos momentos mais importantes — e mais trágicos — de sua história.

Segundo o relato que deu origem ao livro, Christiane experimentou heroína pela primeira vez depois de assistir a um show de David Bowie. O concerto aconteceu na Deutschlandhalle, em Berlim, durante a turnê Isolar, em abril de 1976.

É impossível ignorar a ironia cruel dessa história: o músico que Christiane admirava e cuja música fazia parte daquele universo de liberdade e rebeldia acabou ficando ligado, dentro de sua própria trajetória, ao momento em que ela entrou em contato com a droga que mudaria completamente sua vida.

É importante deixar claro, entretanto, que isso não significa que Bowie tenha incentivado Christiane a usar heroína. O cantor simplesmente fazia parte daquele universo cultural e foi o artista que ela foi assistir naquela noite. A droga veio depois, através das pessoas que estavam com ela.

David Bowie e a atriz Natja Brunckhorst no filme Christiane F.




David Bowie também aparece no filme


A relação entre Bowie e Christiane F. não ficou apenas nas páginas do livro. Quando a história chegou ao cinema, em 1981, o cantor também passou a fazer parte da própria narrativa do filme.

Bowie aparece em uma sequência de concerto e várias de suas músicas estão presentes na trilha sonora. Entre elas estão Station to Station, Heroes, TVC15, Look Back in Anger, Boys Keep Swinging, Sense of Doubt, Stay e V-2 Schneider.

Sua presença não era apenas uma escolha estética. Bowie já fazia parte da história de Christiane antes mesmo de o filme existir.

David Bowie fez a trilha sonora do filme Christiane F.




A famosa cena do concerto


Uma das cenas mais marcantes do filme mostra Christiane e seus amigos em um concerto de Bowie.

Curiosamente, a apresentação que vemos na tela não foi filmada em Berlim. A sequência foi gravada em outubro de 1980 no Hurrah Club, em Nova York, enquanto Bowie estava nos Estados Unidos para atuar na Broadway em The Elephant Man.

O clube foi transformado para parecer uma casa noturna de Berlim. Parte das imagens da multidão também foi aproveitada de gravações de um show do AC/DC realizado na Alemanha.

O resultado é uma das sequências mais reconhecíveis de Christiane F. — e também uma das que melhor representam a importância que Bowie tinha dentro daquele universo.

David Bowie e a atriz Natja Brunckhorst no filme Christiane F.




A música de Bowie acompanha a história de Christiane


A trilha sonora do filme é fortemente marcada pela fase que Bowie viveu em Berlim. Durante os anos 1970, o cantor passou uma temporada na cidade e gravou ali alguns de seus trabalhos mais importantes, entre eles Low, Heroes e Lodger.

Essa ligação com Berlim ajudava a tornar sua música especialmente adequada à atmosfera do filme: uma cidade dividida, uma juventude em busca de liberdade e uma mistura de música, arte, noite e comportamento transgressor.

A canção Heroes, em particular, acabou se tornando uma das músicas mais associadas ao filme. Sua presença aparece em um dos momentos mais emblemáticos da história de Christiane.

É difícil separar a imagem de Bowie daquela Berlim retratada em Christiane F.. Sua música parece pertencer naturalmente àquele cenário.

Christiane F do filme vê um cartaz do show de David Bowie




Bowie e Christiane F.: uma ligação que vai além da trilha sonora


Bowie não está no filme simplesmente porque sua música combinava com a atmosfera da história. A presença do cantor tinha uma relação direta com a própria história de Christiane F.

Para Christiane, Bowie era um ídolo. Ela foi a um de seus shows e, segundo o relato que deu origem ao livro, foi depois daquela noite que experimentou heroína pela primeira vez.

Anos mais tarde, quando sua história foi transformada em filme, o mesmo cantor voltou a aparecer dentro da narrativa — desta vez, através de sua própria imagem e de suas músicas.

Existe algo particularmente simbólico nessa coincidência. A música que fazia parte do universo de Christiane quando ela era apenas uma adolescente acabou se tornando parte inseparável da história que seria contada sobre sua vida.

Por isso, Bowie funciona em Christiane F. quase como uma ponte entre dois mundos: de um lado, o universo da música, da juventude e da Berlim dos anos 1970; de outro, a trajetória cada vez mais destrutiva de Christiane e seus amigos.

Depois que Wir Kinder vom Bahnhof Zoo transformou Christiane em uma celebridade internacional, a relação com Bowie ganhou um capítulo completamente diferente. O cantor que ela havia admirado como adolescente passou a fazer parte do círculo de pessoas que ela conhecia pessoalmente.

Abaixo uma foto do cantor ao lado de Christiane F. (à direita da imagem).

David Bowie e a Christiane F. da vida real




David Bowie deixa um legado também em Christiane F.


David Bowie morreu neste domingo, 10 de janeiro de 2016, aos 69 anos, após uma batalha de 18 meses contra o câncer. A notícia foi divulgada por sua família nas redes sociais e pegou fãs do mundo inteiro de surpresa.

A morte aconteceu apenas dois dias depois do lançamento de seu último álbum, Blackstar, lançado em 8 de janeiro, justamente no dia de seu aniversário.

Ao longo de uma carreira de décadas, Bowie passou por diferentes estilos e personagens, sempre se reinventando. Sua passagem por Berlim, no final dos anos 1970, marcou profundamente sua produção musical e ajudou a construir a imagem da cidade que hoje também está tão ligada à sua história.

Para quem conhece a história de Christiane F., entretanto, existe ainda uma ligação muito mais particular.

Bowie não foi apenas um dos artistas presentes na trilha sonora do filme. Ele já fazia parte da história de Christiane antes que aquela história chegasse ao cinema.

Talvez seja justamente isso que torne sua presença em Christiane F. tão marcante. A música de Bowie não está ali apenas para criar uma atmosfera. Ela está ligada às memórias, aos lugares e aos acontecimentos que formaram a história daquela adolescente de Berlim.

Hoje, com a morte de David Bowie, essa ligação ganha um significado ainda mais triste.

Descanse em paz, David Bowie.

David Bowie no filme Christiane F.

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