Quando Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída chegou aos cinemas, em 1981, ninguém poderia imaginar que aquela adolescente escolhida quase por acaso para interpretar Christiane F. continuaria sendo lembrada pelo papel décadas depois.
Ao contrário do que vemos hoje em dia, com adultos completamente barbados interpretando personagens adolescentes (o que pode acabar comprometendo a nossa capacidade de "comprar" aquela história e acreditar nela), Natja Brunckhorst tinha apenas 13 anos quando foi escolhida para interpretar a protagonista da mesma idade. Ela nunca havia atuado profissionalmente e, como fez questão de explicar em entrevistas ao longo dos anos, nunca havia usado drogas.
Muito tempo depois, a atriz relembrou diversos episódios das filmagens e contou como foi participar de um filme que acabou se tornando um dos retratos mais conhecidos da juventude marginalizada de Berlim Ocidental nos anos 1970.
Como Natja Brunckhorst conseguiu o papel
A escolha de Natja começou de maneira bastante casual. A equipe de Uli Edel foi até sua escola procurando meninas para o filme. Ela estava sentada no pátio, comendo uma maçã, quando foi abordada por uma mulher que perguntou se gostaria de fazer um teste.
Natja aceitou. No teste, oito garotas foram maquiadas e caracterizadas como jovens dependentes de drogas. A câmera passou de uma para outra, até chegar a Natja.
Anos mais tarde, Bernd Eichinger, produtor do filme, contou a ela que sua aparição no teste havia provocado uma reação imediata na sala de exibição. Natja parecia muito jovem, era tímida e tinha uma voz baixa, mas havia alguma coisa em sua presença que chamou a atenção da equipe.
Ela inicialmente havia sido considerada para interpretar a irmã de Christiane F., mas acabou recebendo o papel principal.
O pai de Natja permitiu que ela participasse das filmagens. Na época, ninguém imaginava que aquele trabalho teria consequências tão grandes para a vida da menina.
Abaixo, uma imagem de Natja bem jovenzinha no teste para o personagem de Christiane F.
“Eu nunca tinha usado drogas”
Uma das coisas que Natja mais fez questão de esclarecer ao longo dos anos foi que ela não tinha experiência pessoal com drogas quando começou a trabalhar no filme.
Antes das filmagens, ela havia visto uma pessoa dependente de drogas apenas uma vez. Também leu o livro de Christiane F. por iniciativa própria, independentemente da preparação para o papel, afinal o livro ficou muito famoso na Alemanha na época.
Mesmo assim, algumas pessoas passaram a acreditar que a atriz conhecia pessoalmente aquele universo e chegaram a tratá-la como uma espécie de especialista em drogas durante entrevistas e programas de televisão.
Natja sempre considerou isso absurdo. Ela estava interpretando uma personagem e não vivendo aquela história.
Os truques usados nas cenas de drogas
Como Natja não tinha experiência com drogas, a equipe precisou encontrar maneiras de reproduzir na tela a aparência de uma pessoa intoxicada ou em abstinência.
Um dos truques utilizados era colocar gotas nos olhos da atriz para alterar a aparência de suas pupilas. Em determinadas cenas, os olhos deveriam parecer mais abertos ou mais fechados, dependendo do estado de Christiane.
Para representar a abstinência, Uli Edel simplesmente dava instruções para que Natja imaginasse estar extremamente doente, como se estivesse com uma gripe muito forte ou sofrendo com fortes dores e cólicas.
Natja conta que não ficava tentando reproduzir conscientemente aquilo que uma pessoa dependente de drogas faria. Ela simplesmente confiava nas orientações do diretor e atuava.
O medo de seringas e as cenas de injeção
Natja também tinha um medo enorme de seringas — algo que, segundo ela, continua até hoje.
Para algumas tomadas mais distantes, o maquiador encontrou uma solução engenhosa. A ponta da agulha era cortada e lixada, e uma pequena mangueira era colocada atrás da seringa para criar a ilusão de que alguma coisa estava sendo injetada ou retirada.
Quando a câmera estava muito próxima e a agulha precisava aparecer claramente, entretanto, algumas dessas cenas foram realizadas por um dublê. Em uma delas, o dublê era o próprio irmão de Natja, que recebeu 50 marcos por cada “agulhada”.
A cena do vômito também foi feita com efeitos simples. Natja contou que uma mangueira foi colocada em sua mão e vinho foi utilizado para criar o efeito. Depois que o líquido entrou em seu nariz, ela decidiu que não queria repetir a experiência.
O dia em que Natja quase entrou no carro de um homem de verdade
Foi durante uma das filmagens na Kurfürstenstraße que Natja percebeu, pela primeira vez, que a realidade retratada pelo filme estava muito mais próxima dela do que imaginava.
A cena mostrava Christiane esperando um carro para entrar nele. Como a sequência seria filmada com uma lente de longa distância, a equipe permanecia bem afastada da atriz.
Um carro realmente parou. Natja se aproximou e estava prestes a entrar quando percebeu, pelo canto do olho, integrantes da equipe correndo em sua direção e gritando para que ela parasse.
O homem dentro do carro não era um ator. Era um cliente que realmente procurava uma menina para prostituição.
Natja quase entrou no veículo antes que a equipe conseguisse interromper a situação.
Segundo ela, aquele foi o único momento durante toda a produção em que percebeu de maneira tão direta que aquilo que o filme estava mostrando não era apenas ficção.
Foi quando entendeu: aquilo realmente existia e estava acontecendo ao seu redor.
As filmagens clandestinas na Bahnhof Zoo
A equipe também enfrentou dificuldades para filmar dentro da estação Bahnhof Zoo. Como não havia autorização para realizar as filmagens naquele local, algumas cenas precisaram ser feitas de maneira praticamente clandestina.
Uli Edel contou que o diretor de fotografia se sentava em uma cadeira de rodas com a câmera escondida em uma caixa sobre o colo. Um visor estendido permitia que ele enxergasse o que estava filmando enquanto alguém empurrava a cadeira pela estação.
A equipe acompanhava Natja enquanto ela circulava pelo local, tentando registrar as imagens com a aparência espontânea de um documentário.
A estratégia funcionou apenas uma vez. Algumas das imagens acabaram ficando fora de foco, mas justamente esse aspecto contribuiu para a aparência documental do filme.
Uli Edel queria que o filme parecesse um documentário
No início das filmagens, os jovens atores tinham dificuldades para acompanhar as marcações de luz, seguir os movimentos da câmera e atuar diante dos equipamentos.
Como quase nenhum deles tinha experiência anterior, Uli Edel decidiu mudar completamente a maneira de filmar.
Ele contratou um novo diretor de fotografia vindo do cinema documental e pediu que a câmera simplesmente acompanhasse os jovens, sem obrigá-los a se movimentar de maneira rígida ou artificial.
A partir daí, o filme ganhou um estilo muito mais próximo de uma reportagem ou de um registro documental. A iluminação ficou mais simples e algumas imagens perderam a nitidez, mas os jovens passaram a atuar com muito mais liberdade.
Foi uma escolha que ajudou a construir justamente uma das características mais marcantes de Christiane F.: a sensação de que estamos observando pessoas reais em vez de atores interpretando uma história.
Um saco de heroína foi encontrado durante as filmagens
Uma das histórias mais absurdas contadas por Uli Edel aconteceu durante uma gravação em um banheiro público.
Enquanto filmava Natja de cima de uma escada, o diretor percebeu que havia um grande saco de heroína escondido em um vão na parede.
Naquele momento, a produção estava enfrentando dificuldades financeiras e Bernd Eichinger havia acabado de comentar que não sabia como conseguiria pagar os últimos dias de filmagem.
Edel brincou que poderiam vender a droga para financiar mais alguns dias de produção.
Pouco depois, um homem de aparência bastante perturbada entrou no banheiro. Para evitar que ele chegasse perto de Natja, o diretor jogou o saco em sua direção. O homem pegou a droga e foi embora.
E a equipe simplesmente continuou filmando.
Os banheiros eram realmente imundos?
As cenas dos banheiros também foram gravadas em locais reais. Natja contou que chegou a filmar em oito banheiros diferentes.
Antes das gravações, o cenógrafo limpava os locais para que a equipe pudesse trabalhar. Depois, eles eram novamente sujos para criar a aparência degradada que vemos no filme.
E havia um truque bastante simples para isso: chocolate era usado para simular sujeira.
A produção conseguia, assim, filmar em locais reais sem precisar deixar a equipe trabalhando em condições completamente insalubres.
As cenas de sexo eram mais constrangedoras para os adultos
Apesar de ter apenas 13 anos, Natja cresceu em uma comunidade alternativa em Berlim, onde assuntos relacionados a sexo eram discutidos com bastante naturalidade.
As cenas do filme, entretanto, apresentavam uma situação completamente diferente.
Ela contou que, quando chegava a hora de filmar cenas íntimas, toda a equipe desaparecia do set de repente, deixando apenas as pessoas necessárias para a gravação.
Para Natja, o constrangimento dos adultos ao redor era muitas vezes mais estranho do que a própria cena.
Em uma ocasião, Uli Edel disse que iriam filmar uma cena de coito. Natja chegou a pensar que “coito” poderia ser alguma gíria regional que ela desconhecia.
A cena com David Bowie foi filmada em Nova York
Uma das participações mais famosas do filme também teve uma história curiosa nos bastidores.
David Bowie estava em Nova York, onde participava da produção de The Elephant Man, na Broadway. Por isso, a equipe de Christiane F. viajou até os Estados Unidos para filmar a sequência do concerto.
As gravações aconteceram em dezembro de 1980. Na mesma manhã, John Lennon foi assassinado em Nova York, a poucos quarteirões do local onde a equipe estava trabalhando.
Bowie chegou a avisar que não participaria das filmagens naquele dia. A equipe, porém, conseguiu convencê-lo a realizar a sequência rapidamente.
A participação de Bowie acabou se tornando uma das imagens mais memoráveis do filme.
Natja Brunckhorst encontrou Christiane F.
Apesar de interpretar Christiane F. no cinema, Natja não teve uma convivência próxima com a verdadeira Christiane durante a produção.
As duas só se encontraram pessoalmente anos depois.
O encontro aconteceu quando Natja já tinha 16 anos e Christiane estava tocando em uma banda em um clube punk de Berlim. Elas foram apresentadas e trocaram algumas palavras.
Em outra ocasião, Natja também contou que encontrou Christiane durante um show. As duas praticamente não conseguiram conversar porque a música estava muito alta.
Ainda assim, Natja demonstra gratidão pela mulher que interpretou no cinema. Segundo ela, a história de Christiane mudou completamente sua própria trajetória profissional.
Depois de atuar no filme, Natja estudou em um colégio interno em Londres e mais tarde se mudou para Paris. Com o passar dos anos, tornou-se diretora e roteirista, trabalhando no cinema durante décadas.
E mesmo tantos anos depois, ela continua sendo reconhecida nas ruas como “aquela garota” de Christiane F..
“Eu estava atuando”
Talvez uma das maiores ironias da trajetória de Natja Brunckhorst seja justamente o fato de muitas pessoas terem confundido a atriz com a personagem.
Durante anos, ela ouviu comentários de pessoas que presumiam que ela havia vivido aquela história de drogas e prostituição na vida real.
Natja sempre fez questão de explicar que não era assim.
Ela era uma menina de 13 anos interpretando uma personagem.
O que tornou sua atuação tão convincente não foi uma experiência pessoal com drogas, mas justamente sua capacidade de confiar no diretor, observar o que acontecia ao seu redor e entrar naquele personagem.
Décadas depois, Natja Brunckhorst deixou para trás a imagem daquela adolescente de Berlim e construiu uma carreira própria no cinema. Mas, para milhões de pessoas, ela continua sendo inseparável de Christiane F.
E talvez isso seja uma das maiores provas do impacto que aquele filme de 1981 teve.
Fonte: Rolling Stone | The Guardian | O Povo
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