
O estrago da heroína: histórias de quem viveu pra contar. Um panorama da distribuição da droga no Brasil e do cotidiano dos viciados brasileiros na última década.
Matéria de Israel J. Stein
Revista Jovem Pan - Junho/julho 2003 - n° 4
Abaixo das imagens, consta a transcrição da matéria!
Cuidado com a Heroína
PRODUZIDA NA COLÔMBIA, A "JOANA D'ARC" ENTROU NO PAÍS ATRAVÉS DOS RIOS DA AMAZÔNIA E PELA FRONTEIRA DA VENEZUELA. OS ESPECIALISTAS AVISAM: QUEM USA A DROGA NÃO SABE QUE ESTÁ ENTRANDO NUMA VIAGEM QUE MATA E CAUSA MAIS DEPENDÊNCIA QUE O CRACKPOR ISRAEL J. STEIN
"Vamos matar Joana antes que Joana nos mate..." Cantarolando, como um palhaço lúgubre, a melodia Eu não Matei Joana D'Arc, do Camisa de Vênus, Antônio está pronto para caçar o dragão. Pega uma lâmpada, arranca o bocal. Joga dentro dela uma pitada de um pó marrom. Põe a lâmpada na boca, como um cachimbo, esquenta o vidro, dá uma pitada. Pronto. O dragão está caçado.
Ao seu lado, José, que não curte o gosto do vidro, diz: "pega um papel-alumínio na cozinha!". Estica a superfície brilhante e polvilha sobre ela o mesmo pó marrom. Depois, acende um isqueiro por debaixo do alumínio. O pó ferve. Libera uma fumaça, que José absorve correndo. Sente um tranco. O mesmo tranco que segundos atrás e linhas acima fez com que Antônio caísse de costas num sofá. Como se sentisse um orgasmo. Só que o tesão por caçar o dragão na verdade é um atalho para lhe tirar as dores do corpo. Que se estendem, nos dois, há pelo menos três anos. Heroína é isso aí: o que surgiu de uma curiosidade para acompanhar "umas minas" em uma rave no interior do Estado de São Paulo, no ano 2000, converteu-se em dependência da brava. Que lhes consome a saúde, as amizades e o bolso. "Só ando com quem caça o dragão, sempre sobra uma rapa. Também, por cem dólares o grama, como eu iria viver de caçar o dragão sozinho?", diz Antônio. Os dois mataram Joana D'Arc. Mas ela os tem matado. Em conta-gotas. Ou melhor: em baforadas. Porque, dizem os dois, não gostam de ver sangue e preferem fumar a injetar.
"Caçar o dragão" foi um termo que aprenderam no ano passado, quando viram o filme Do Inferno, em que Johnny Depp interpreta um viciado em ópio e heroína que tenta encontrar, como agente da Scotland Yard, a identidade do assassino conhecido como Jack, o Estripador. Mas a gíria empregada pelos dois não é tão antiga assim. "Chase the dragon" é termo ainda hoje empregado em South Central, bairro mais violento de Los Angeles, pelos consumidores de heroína. E a referência à música do Camisa de Vênus é óbvia: Joana D'Arc significa simplesmente "heroína".
Antônio e José, os dois protagonistas da nossa história, são de carne e osso. Melhor dizendo: são de pele e osso. Moram em São Paulo. Dispõem de quatro fontes que lhes trazem a heroína da Bahia, uma vez por mês. José não trabalha mais. Antônio vive de bicos, carregando amplificadores para shows de pelo menos quatro bandas diferentes, que lhe pagam R$ 80 por dia de trabalho, mesmo assim só quando há shows. Para manter o vício passou a me traficar heroína. Como não tem grana para tanto consumo, achou uma droga substituta que está fazendo com que perca os cabelos: compra de uma vez 12 frascos de Elixir Paregórico na farmácia. O remédio, que é usado para cólica de bebês, contém uma porção mínima de morfina em sua solução (menos de 0,001 ml). Antônio chega a tomar seis frascos juntos para sentir barato semelhante ao da heroína. "Algumas minas reclamam que meu fedor é de petróleo", diz, sorrindo.
O fato é que a heroína invadiu o Brasil. O delegado federal Gilberto Tadeu Vieira Cesar diz que nos últimos três anos a Polícia Federal "apreendeu quase uma centena de quilos de heroína, que se destinavam ao exterior, droga produzida na Colômbia e que entrou no Brasil pelos rios da Amazônia e pela fronteira da Venezuela, introduzida no país por colombianos e venezuelanos".
Tadeu Cesar avalia: "Sem dúvida alguma as plantações de papoula na Colômbia representam uma séria preocupação, na medida em que a heroína, como a cocaína, pode ser introduzida no Brasil e se tornar mais uma opção para traficantes e dependentes de drogas. Evidentemente, por trás da produção de heroína e outras drogas ilícitas, está o crime organizado, representado pelos cartéis produtores e máfias distribuidoras".
As afirmações do delegado ganham outra dimensão quando comparadas aos números do tráfico colombiano. A DEA (Drug Enforcement Administration), agência norte-americana de combate às drogas, revela que desde 1995 o cultivo de coca na região triplicou, de 50 mil hectares em 1995 para mais de 169 mil em 2001. Ou seja: a produção colombiana aumentou 217% desde 1995. E o que isso tem a ver com heroína?
Tudo. As dez principais máfias do mundo movimentam por ano cerca de US$ 3 trilhões, gerados a partir de US$ 200 bilhões que os cartéis colombianos movimentam por ano. Essa movimentação faz com que os narcotraficantes movimentem o caixa e cresçam, diversificando seus "negócios". Desde os anos 90, o cultivo de ópio na Colômbia se expandiu rapidamente. Com cerca de 6.540 hectares de cultivo de papoula em 2001, a Colômbia produz por ano 4,3 toneladas cúbicas de heroína. "Capitalizando as rotas existentes de cocaína, os traficantes colombianos tomaram o controle da heroína, desbancando os traficantes tradicionais do Sudoeste Asiático. Cerca de 59% da heroína confiscada nos Estados Unidos por ano é de origem colombiana, contra 24% de uma combinação vinda dos cartéis asiáticos (16% do sudoeste e 8% do sul)", revela relatório divulgado pela DEA no ano passado (veja site: www.usdoj.gov/dea).
Na retaguarda do vício de Antônio e José há portanto uma rede internacional de assassinos e traficantes, dispostos até a derrubar governos — como o general Garcia Meza fez na Bolívia em 1980.
Infelizmente, no Brasil, não são apenas nossos entrevistados, Antônio e José, que estão pouco se lixando para tudo isso, inclusive para suas vidas. "Com preços variando de R$ 250 a R$ 400 reais o grama, só a elite me consome heroína no Brasil. Cerca de 70% do que há aqui é a marrom, ou brown sugar. São altos executivos, que não sabem que estão entrando numa droga que mata e causa mais dependência do que o crack. Essa droga desagrega o físico e o mental", resume o delegado Luis Carlos Magno, do Denarc, de São Paulo, órgão da Polícia Civil que combate o narcotráfico.
NA MÚSICA, DE MÃOS DADAS COM A MORTE
Além de Kurt Cobain, a história do rock e da música revela que a heroína anda de mãos dadas com a morte. Aqui estão os casos mais famosos: Miss Crissie, adolescente, chefe do fã-clube de Frank Zappa, morta por overdose em 1972; Vinnie Taylor, guitarrista da banda Sha Na Na, morto aos 25 anos, em 1974; Brian Cole, aos 28 anos, em 1972; Steve Perron, compositor do ZZ Top, aos 28 anos, em 1973, morto ao engasgar com o próprio vômito após ter injetado; Robbie McIntosh, aos 24 anos, o baterista da Average White Band, que morreu nos braços de um amigo, em 1974; o famoso Sid Vicious, baixista dos Sex Pistols, foi-se aos 21, em 1979; Janis Joplin, aos 27 anos, em 1970.Há quem associe certos climas do jazz dos anos 30 e 40 ao alto consumo de heroína: uma morbidez contida, como a de Chet Baker, por exemplo. Entretanto, o caso em que mais se revelaram os estragos que a heroína pode fazer com um ser humano, em termos de decadência, foi posto a nu no livro The Hammer of The Gods, de Stephen Davis, celebrado repórter do The New York Times. Em 359 páginas, ele conta passo a passo como o pozinho desagregou as vidas e as carreiras dos músicos do Led Zeppelin, sobretudo Jimmy Page. O livro ficou semanas na lista dos mais vendidos nos Estados Unidos nos anos 90. A fonte principal foi ninguém menos que Richard Cole, o chefe de palco do Led, ele mesmo um viciado em heroína, que graças ao vício trocou a fama e a fortuna que rodeavam o Led por uma cela de prisão na cadeia Regina Coelli, nos arredores de Roma.
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