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08/10/2026

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Morte de Babsi, amiga de Christiane F., no jornal The New York Times, 1978

Babsi, amiga de Christiane F.
Babette Döge, a Babsi amiga de Christiane F. Ela parecia ter bem mais que 14 anos, não é mesmo?


Em 09 de Janeiro de 1978, o Jornal The New York Times, dos Estados Unidos, repercutiu a matéria publicada uma semana antes na Alemanha pela Revista Der Spiegel e citou a morte de Babsi, amiga de Christiane F. em uma matéria sobre a epidemia de vício em drogas pesadas em Berlim. Confira o artigo abaixo:



Morte de Babsi, amiga de Christiane F., no jornal The New York Times

O aumento das mortes relacionadas às drogas leva o governo de Berlim Ocidental a iniciar programa contra as drogas

9 de janeiro de 1978



BERLIM OCIDENTAL, 8 de janeiro — Antes de Ingo Hillmer aplicar a injeção fatal, escreveu uma carta de despedida para sua mãe. “Eu sei que você quer me ajudar”, disse o estudante de 15 anos, “mas não há mais nada que ninguém possa fazer”.

O jovem e uma garota de 14 anos, Babette Döge, foram as vítimas mais jovens do boom das drogas que tomou conta desta cidade no último ano. O número de mortes relacionadas às drogas subiu em 1977 para 84, contra 56 no ano anterior e apenas 9 em 1971. Segundo especialistas, a taxa de mortalidade é maior do que em cidades comparáveis da Alemanha Ocidental, como Munique, onde 16 mortes foram registradas no ano passado. Em Nova York, são cerca de 700 por ano.

Diante da preocupação pública, o Governo de Berlim Ocidental está prestes a criar um programa de combate à heroína de 4 milhões de dólares e nomeou um psicólogo de 31 anos, Wolfgang Heckmann, como administrador. Ele espera estabelecer uma rede de instalações, desde equipes de atendimento nas ruas até clínicas, para combater o problema das drogas. “Vai ser um trabalho difícil”, disse ele, “sem nenhum sucesso fácil à vista”.

O crescimento do mercado de drogas é atribuído ao que as autoridades chamam de “conexão turca”, o tráfico de drogas canalizado a partir de regiões produtoras de ópio na Turquia, no Irã e no Afeganistão.



Caminhões diretamente da Turquia

“Dia após dia, fileiras de caminhões chegam aqui da Turquia”, disse Gerhard Ulber, chefe da divisão de combate aos narcóticos da polícia de Berlim Ocidental. “Grandes quantidades de heroína costumam estar escondidas entre latas de vegetais ou outras mercadorias legítimas”.

Ele disse que a droga também era contrabandeada a bordo de voos fretados programados quase diariamente para os 75 mil trabalhadores turcos e suas famílias que vivem em Berlim Ocidental. “Realizamos controles”, disse ele, “mas é impossível verificar todo mundo”.

O tráfico de heroína proveniente do Sudeste Asiático é insignificante. Um quilo da droga — cerca de 2,2 libras — vale entre 60 mil e 70 mil dólares no atacado.

Segundo Ulber, a heroína do Oriente Médio chega em sua forma pura, uma indicação de que laboratórios ilegais operam nos países produtores. Laboratórios na Europa Ocidental, por exemplo, em Marselha, há muito foram eliminados, disse ele. A heroína é obtida por meio de processos farmacêuticos a partir da morfina, que, por sua vez, é obtida das papoulas de ópio.

O policial responsável pelo combate aos narcóticos disse que os traficantes e intermediários eram quase exclusivamente turcos e reconheceu que a polícia tinha dificuldade para se infiltrar na comunidade turca. Três traficantes cumprem penas de prisão que variam de sete a nove anos, mas a maioria dos detidos nas operações são dependentes que atuam no comércio para sustentar o próprio vício.

A polícia havia registrado até então 1.600 dependentes, mas as estimativas variavam entre 3 mil e 10 mil. Ulber disse que havia pelo menos 3 mil, sem contar os visitantes. Enquanto ele falava, uma mãe de Bremen telefonou, implorando que ele procurasse seu filho de 17 anos, um dependente desaparecido de casa. “Tudo bem, vou mandar alguém ao hotel que você mencionou”, disse ele à mulher. “Se o encontrarmos, avisaremos você”.

A fácil disponibilidade da droga nesta metrópole extensa e o fluxo de pessoas sem residência fixa vindas de outros lugares são vistos como fatores que contribuem para a alta taxa de mortalidade, mas parece não haver uma explicação simples.

O professor Friedrich Bschor, da Universidade Livre, especialista em controle de narcóticos, afirmou em um estudo recente que “o alto risco de mortalidade relacionada às drogas em Berlim é equivalente ao registrado em cidades americanas”.

Ele disse em uma entrevista que o aumento do número de mortes em 1977 foi “quase sem paralelo”, apresentando uma taxa de mortalidade de 4,2 por 10 mil habitantes e 20 por mil dependentes.

O Dr. Bschor disse que os suicídios propriamente ditos, como o de Ingo Hillmer, representavam 10% dos casos que havia estudado. Seu instituto não apenas acompanha a situação das drogas, mas também atende uma carteira de 500 dependentes. Ele disse que a alienação das grandes cidades contribuía para a taxa de mortalidade.

“Muitos desses jovens passam de um quarto em ruínas para outro e, frequentemente, em situações de emergência, ninguém se atreve a pedir ajuda porque as pessoas presentes também são dependentes”, disse ele. No ano passado, 34 vítimas foram encontradas mortas em locais públicos, em parques, banheiros públicos ou no metrô. Das 84 pessoas mortas, 22 eram mulheres.

“O que você diz a uma jovem prostituta de rua que afirma precisar tomar sua dose diária porque, caso contrário, não consegue suportar a vida?”, perguntou outro especialista em drogas, Adolf Straub, acrescentando que a maioria dos dependentes — com idades entre 16 e 25 anos — não estava disposta a procurar tratamento e ser registrada. “É aí que precisamos do novo programa, para conversar com essas pessoas de maneira informal e motivá-las”, disse ele.

O professor Bschor afirmou que os alemães frequentemente eram inflexíveis ao lidar com o problema, em contraste com os Estados Unidos, onde, segundo ele, “prevalecem métodos de tentativa e erro, e programas malsucedidos são abandonados em favor de novas abordagens”. A associação médica da Alemanha Ocidental havia recentemente reafirmado o antigo método de tratamento por abstinência em alas psiquiátricas.

Segundo o Dr. Bschor, não havia planos para introduzir drogas substitutas, como a metadona, nem os alemães pretendiam seguir o exemplo britânico de disponibilizar heroína oficialmente. “Não estamos convencidos de que a taxa diminua de forma apreciável com esses métodos”, disse ele.

Organizações privadas de combate às drogas originárias dos Estados Unidos, como a Synanon, atuam em Berlim Ocidental, mas o professor Bschor afirmou que elas precisavam ser complementadas por uma rede de centros locais.

Em um projeto de autoajuda, seu instituto organiza viagens de carro — uma delas foi uma jornada pelo Saara — para ex-dependentes de narcóticos. “Descobrimos”, disse ele, “que, nesses novos campos de experiência, muitos dos pacientes considerados de pouca força de vontade e com pouca capacidade de resistência nas condições convencionais desenvolveram graus inesperados de atividade e iniciativa”.

Fonte: The New York Times

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