Mostrando postagens com marcador trechos do livro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador trechos do livro. Mostrar todas as postagens

sábado, 22 de setembro de 2012

A amizade de Christiane com Kessi


Christiane aos 15 anos, em 1978


Susanne Kuhn, mais conhecida como Kessi, é a primeira amiga importante de Christiane F. que aparece no livro. Depois vieram Detlef, Babsi, Stella, as Tinas, mas elas são assunto para posts futuros.

Christiane e Kessi se conheceram no colégio Helmholtz-Oberschule Gesamtschule, e foi com ela que Christiane começou a frequentar o Centro de Jovens e depois a discoteca Sound. Foi com ela também que Christiane começou a se drogar.


Leia mais e veja fotos de Kessi
Fotos do colégio onde Christiane F. e Kessi estudaram


Christiane F. tinha então, onze ou doze anos de idade. Esta fase marca a transição da infância para a adolescência e representa o início de um busca por emancipação e individualidade. É neste momento que a criança passa por uma série de alterações psicológicas onde começa a dar mais importância às amizades, se agrupa com amigos que possuem algo em comum e passa a ser mais reflexiva e questionadora quanto aos modelos adquiridos pelos pais. São os primeiros passos da busca pela independência e da formação de sua personalidade.

Até então, Christiane F. sofria em casa com um pai negligente, irresponsável e violento. Por vezes apanhava ou levava sermões por pequenas travessuras ou acidentes. Dessa forma, em seu ambiente familiar, é provável se sentisse, inconscientemente, subjugada e desrespeitada.


Saiba mais sobre o pai de Christiane F.


Por este motivo, Christiane F. acabou por desenvolver grande necessidade de se afirmar: já aos oito anos de idade, como mecanismo de defesa, Christiane se impunha e assumia posturas de comando sobre as outras crianças, como podemos ver no seguinte trecho do livro "Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída...", sobre as brincadeiras nos elevadores do Conjunto Gropius:

"(...) brincar com os elevadores. A primeira coisa a fazer, evidentemente, era amolar uma outra criança. Pegávamos uma delas, metíamo-la à força dentro do elevador e apertávamos todos os botões, enquan to impedíamos o outro elevador de funcionar."


Por vezes, a própria Christiane foi a vítima desta brincadeira, que a colocava em condição de fraqueza, até que aprendeu a se defender, assumiu posição de poder e passou a fazer o mesmo com outras crianças menores e mais ingênuas.

Em outro trecho, Christiane demonstra o controle que ela e uma amiga exerciam sobre Anette, sua irmã mais nova:

"Nós lhe dávamos ordens: lavar a louça, tirar o pó, enfim, fazer todo o serviço doméstico de que nossos pais nos haviam encarregado. Depois disso, pegávamos nossas bonecas, trancávamos minha irmãzinha no apartamento e íamos passear. Nós só a deixávamos livre quando ela terminava todo o trabalho."


Em várias outras partes do livro, já aos doze anos de idade, Christiane demonstra estar acostumada a se afirmar perante os colegas de classe e professores, muitas vezes agredindo-os ou perturbando as aulas. Queria ser poderosa como seu pai e exercer controle sobre as pessoas.

Christiane amava o poder e foi, justamente, o poder de Kessi que despertou sua atenção. No livro, é possível perceber a grande admiração que sente por ela desde o momento em que se conhecem, afinal de contas, Kessi já tinha seios de verdade e parecia ser dois anos mais novas do que os outros. Além disso, ela tinha um namorado, se comportava como a líder da turma e todos a respeitavam. Christiane queria ser sua amiga.

"Meu dia de glória foi aquele em que Kessi me autorizou, finalmente, a sentar-me ao seu lado."


Christiane tinha por objetivo agradar Kessi, e é natural que copiasse o comportamento da amiga e fizesse tudo o que ela sugerisse. Implorou para que sua mãe lhe comprasse um sutiã, começou a usar maquiagem e a matar aula. Passou a frequentar, também, o Centro de Jovens, aonde conheceu vários outros jovens tão descolados e poderosos quanto Kessi. Christiane queria ser como eles.

Um dia, apareceram no Centro com um enorme cachimbo contendo haxixe, um derivado da maconha. Acenderam e o cachimbo começou a circular. Todos tragaram, inclusive Kessi. Na primeira vez, assustada, Christiane recusou. No entanto, se quisesse fazer parte do grupo, não poderia continuar recusando por muito tempo.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Christiane F. e o LSD

A situação em família ficou mais difícil quando a irmã de Christiane foi morar com o pai. Agora eram somente ela, sua mãe e Klaus, seu padrasto.

Não suportando mais permanecer em casa durante o dia, pela presença de Klaus, e cada vez mais ligada a seus amigos, Christiane F. passou a contar as horas para ir ao Centro de Jovens. Queria passar o máximo de tempo fora de casa.


"Esperava, impacientemente, pelas cinco horas, a hora em que abria o Centro de Jovens. Às vezes encontrava-me com Kessi e com alguns amigos do bando no início da tarde."


O Centro de Jovens
O fechamento do Centro de Jovens


Aos treze anos, Christiane fumava haxixe todas as tardes, mas somente fumar já não era mais suficiente: também bebia vinho ou cerveja para se desligar da realidade que tanto a atormentava.

Assim como na primeira vez em que fumara haxixe, Christiane F. tomou LSD pela primeira vez por curiosidade e necessidade de se inserir no grupo. Queria ser igual àqueles que ela tanto admirava. Sua amiga Kessi já tinha tomado um comprimido e estava "viajando". Um amigo deu-lhe um comprimido, que ela tomou no banheiro do Centro de Jovens. Sua primeira viagem só fez efeito quando estava voltando para casa, em Rudow.

"Tomamos o metrô e, aí sim, a coisa começou a funcionar. Uma verdadeira loucura! Tive a sensação exata de estar dentro de uma lata de conserva e que alguém remexia lá dentro com uma colher gigante. O barulho do metrô, quando no túnel, era de enlouquecer. Insuportável mesmo. Pensei que não fosse agüentar."

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Centro de Jovens

Christiane F. foi ao clube do Centro de Jovens (Evangelisches Zentrum Haus der Mitte) pela primeira vez por sua amiga Kessi foi lá que teve o primeiro contato com as drogas. No trecho abaixo, acompanhe a descrição de Christiane sobre o local.

"Era um lugar em que os jovens se reuniam sob a orientação da Igreja protestante. No subsolo havia uma espécie de discoteca, "o clube". A entrada só era permitida aos maiores de catorze anos, mas ninguém notava que Kessi acabara de completar treze anos."


Abaixo, algumas fotos que encontrei do Centro de Jovens:






Escada que levava ao clube no subsolo:



O Evangelisches Zentrum Haus der Mitte foi fechado por Jürgen Quandt, o pastor responsável pelo Centro, devido ao problema das drogas. Posteriormente, o Centro foi reaberto como um Centro Antidroga, com um consultório especializado mantido pelo governo e um centro preventivo. Ficava localizado na região do conjunto Gropius. De acordo com a placa da primeira foto, tirada em 2005, o clube fica localizado na rua Lipschitzallee, número 50, no Gropiusstadt.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Susanne Kuhn (Kessi)

Não existe muita informação na internet sobre Susanne Kuhn, a amiga de Christiane F. com quem ela começou a frequentar discotecas e a usar drogas, no início da adolescência. As duas se conheceram no colégio Helmholtz-Oberschule Gesamtschule.

No livro, "Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída...", Susanne foi chamada de Kessi. Ela foi, durante um tempo, a melhor amiga de Christiane, até o dia em que sua mãe surpreendeu as duas no metrô, às dez da noite, quando deveriam estar em segurança na casa de Christiane, conforme disseram que estariam. Kessi estava dormindo em um banco, completamente drogada e acordou vomitando. Sua mãe lhe deu duas bofetadas e proibiu a amizade das duas. Anos depois, Christiane F. reconheceu que a atitude da mãe de Kessi foi correta e que se sua própria mãe tivesse feito o mesmo, ela não teria chegado ao fundo do poço nas drogas e prostituição como chegou. Essa conclusão está presente no livro, no trecho citado abaixo.

"Esse par de bofetadas na estação de metrô provavelmente evitou muita coisa. Sem ele, Kessi teria, sem dúvida, e antes ainda que eu, aterrissado na "cena" e na prostituição de crianças."

A última aparição pública de Kessi foi na reportagem realizada pela Spiegel TV, em 1995, aonde ela parece ser uma mulher saudável e equilibrada (ao contrário de Christiane, que viveu quase uma vida inteira de excessos). Ela se afastou das drogas ainda na década de 70.

O que se pode encontrar sobre Kessi são as duas seguintes fotos:


Kessi e Christiane F. em um passeio de lancha, quando elas tinham por volta de vinte anos de idade




Kessi na reportagem da Spiegel TV, em 1995

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O divórcio dos pais e a nova vida

Depois de um dos surtos de fúria de Dieter Felscherinow, o pai de Christiane F., a mãe tomou uma decisão muito importante:

"Sem dizer quase nada, ela empacotou algumas coisas, pôs o gato numa sacola e me pediu para pôr a coleira em Ajax. E saímos para tomar o metrô. Passamos uns dias na casa de uma colega de trabalho dela. Mamãe nos disse que queria se divorciar."

Christiane, a irmã, Anette Felscherinow, e a mãe passaram alguns dias no apartamento de uma amiga. Depois precisaram retornar para seu próprio apartamento, no Conjunto Gropius.

Mesmo morando sob o mesmo teto, o pai de Christiane F. começou a se afastar da família e quase nunca estava em casa. Sua mãe chorava sempre, pois se via em um beco sem saída, com duas filhas pequenas para criar e sem o apoio de Dieter.

Foi aí que ela conheceu Klaus, um amigo de Dieter. Eles começaram a sair juntos e Klaus aparecia sempre que o pai das meninas estava ausente.



Diga adeus ao Conjunto Gropius


Não tardaria até que as três fossem morar com ele em seu apartamento em Rudow, uma estação de metrô após o Conjunto Gropius, e Klaus se tornasse padrasto de Christiane F.

Saiba mais:
O padrasto de Christiane F. e a influência dele em seu vício em drogas
O pai de Christiane F.

domingo, 2 de setembro de 2012

Helmholtz-Oberschule Gesamtschule

Na escola de Christiane F., o início de toda sua odisseia. Cristiane foi matriculada no chamado "segundo ciclo", equivalente à quinta ou sexta séries no Brasil, no Helmholtz-Oberschule Gesamtschule, um colégio localizado na área do conjunto Gropius.

"Eu consegui um excelente boletim escolar e estava apta a seguir o segundo ciclo. Inscreveram-me na Escola Polivalente Integrada, do conjunto Gropius."




O Conjunto Gropius
Conheça o edifício e a rua Joachim-Gottschalk-Weg, onde Christiane F. viveu.




O colégio ainda existe com o mesmo nome, localizado na rua Wutzkyallee, na esquina da Joachim-Gottschalk-Weg, rua em que morava Christiane. Navegue através do Google Street View:


Exibir mapa ampliado


"Parti para a guerra. Contra os professores e contra a escola. Queria ser alguém. Existir. O chefe do bando, em nossa classe, era uma menina. Chamava-se Kessi, já tinha seios de verdade. Parecia ter dois anos mais que os outros. Era também mais madura. Todo mundo a respeitava. Eu a admirava. Meu maior desejo era tornar-me sua amiga."

A admiração de Cristiane F. por sua amiga Susanne Kuhn (Kessi) cresce. Christiane se encontra na fase por qual toda menina passa, aonde ter uma melhor amiga é a coisa mais importante do mundo. Kessi fumava, matava aula, conhecia todos os caras legais e frequentava o Centro de Jovens ("Haus der Mitte") as discotecas mais descoladas do momento. Christiane aprendeu tudo bem até demais.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O pai de Christiane F.

"Tio Richard"


Na foto, Dieter Felscherinow, pai de Christiane F., na reportagem de 1995 da Spiegel TV. Na ocasião desta matéria, Dieter não tinha bom relacionamento com a filha e eles não se falavam havia mais de dez anos. No vídeo, ele não dá uma boa impressão e parece insensível ao drama de Christiane F.

Christiane é, claramente, fruto de um lar desestabilizado. Ela, sua irmã mais nova e sua mãe passaram por maus momentos ao lado de Dieter, o pai, que era um homem imaturo e egoísta. Devido a uma gravidez não planejada, Dieter se viu obrigado a se casar e foi empurrado à vida conjugal, para a qual ele não estava preparado. Logo a família ganhou mais um membro, com o nascimento de Anette Felscherinow, irmã de Christiane. Todos sofreram com a negligência e agressividade de Dieter.

"(...) estava sempre dando broncas em minha mãe por ela gastar muito, quando, na verdade, era ela que nos sustentava. Às vezes ela respondia; dizia-lhe que nas bebedeiras, nas farras com as mulheres e nos gastos que ele tinha com o carro é que ia a maior parte do dinheiro. E vinha nova pancadaria."

"Somente mais tarde (...) comecei a sacar um pouco do que se passava. Simplesmente ele não tinha uma vida que correspondesse ao seu nível! A ambição o devorava, e ele sempre fracassava."

"(...) pôs na cabeça que minha mãe e eu, que estava no ventre de mamãe quando se casaram, éramos as responsáveis pelo seu fracasso. Dos seus sonhos, tudo o que restou foi o Porsche e alguns amigos muito faroleiros."


Ele sofria da "síndrome de eterno garotão", como se pode constatar pelos seguintes trechos do livro:

"Não somente odiava a família como ainda, pura e simplesmente, a rejeitava. Isso chegava a tal ponto que nenhum dos seus amigos deveria saber que ele era casado e pai de família. Quando os encontrávamos ou quando algum deles vinha buscá-lo em casa, devíamos chamá-lo de "Tio Richard". Eu, de tanto apanhar, aprendi muito bem e nunca errava: na presença de estranhos, ele era meu tio."

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Placas e mais placas


Uma das inúmeras placas de proibição do Conjunto Gropius. "Não pise na grama. Cães são proibidos". Coitadinho do Ajax...


"No conjunto Gropius aprendia-se, por assim dizer, automaticamente, a desobedecer às proibições. Aliás, tudo ou quase tudo era proibido, principalmente brincar com aquilo que era divertido. O conjunto era pontilhado de placas. Os pretensos parques que separavam os prédios eram verdadeiras florestas de placas e quase todas essas placas proibiam qualquer coisa às crianças."

"Era proibido brincar, correr, andar de bicicleta ou de patins. Em qualquer lugar onde houvesse um pouco de grama havia também placas: É PROIBIDO PISAR NA GRAMA."

Com tantas proibições, aos poucos, em nome da diversão, Christiane F. e as outras crianças adquiriram gosto por burlar as regras.

"Cada locatário tinha um boxe fechado por uma grade que não chegava até o teto (...) Era uma delícia o pavor de se encontrar escondido no escuro no meio de todas aquelas coisas ali guardadas. Além disso, tínhamos medo de ser surpreendidos por algum locatário. Sabíamos muito bem que essa brincadeira era, pelo menos, duplamente proibida. Aí a gente se divertia remexendo nos boxes à procura de coisas engraçadas: brinquedos, roupas velhas para nos fantasiarmos (...) Quando encontrávamos algo muito interessante, não devolvíamos."

"Assim, no conjunto Gropius aprendia-se, automaticamente, que tudo o que era permitido era incrivelmente chato e tudo o que era proibido, divertido."

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Conjuntos residenciais



O resultado da industrialização acelerada pela qual a Alemanha passou da década de 50 à de 70 foi a construção de muitos conjuntos residenciais como o Gropius, para abrigar os trabalhadores. Os efeitos sociais disso podem ser compreendidos com ajuda do seguinte trecho do livro:

"Os desertos de concreto de muitas das 'zonas de saneamento' modernas encerram as pessoas em um ambiente totalmente artificial, frio, mecânico, que agrava em proporções catastróficas todos os conflitos que as famílias já tinham antes de nele se instalarem. O conjunto residencial Gropius é apenas um exemplo: há muitos desses grandes conjuntos residenciais construídos unicamente dentro de uma perspectiva funcional, técnica, esquecidas as necessidades afetivas dos seres humanos. Transformam-se em um excelente meio para o desenvolvimento de problemas psicológicos. Não é por acaso que os casos mais graves de alcoolismo e toxicomania juvenil aí estão implantados. Além disso, as escolas são semelhantes a grandes fábricas, onde reina o anonimato, a solidão moral e uma concorrência desenfreada e brutal."


Horst-Eberhard Richter, psicanalista e autor do prefácio de "Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída..."


Saiba mais sobre o Conjunto Gropius
Conheça o edifício e a rua Joachim-Gottschalk-Weg, onde Christiane F. viveu.
A escola de Christiane F.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

As drogas nos anos 70

Christiane F. aos 15 anos, em seu julgamento por uso de drogas em 1978


Além de se passar na Europa, aonde a heroína tem grande potencial para ser distribuída facilmente, como vimos nos posts anteriores, a história de Christiane F. se passa nos anos 70, época em que os poderes nocivos das drogas ainda não eram inteiramente conhecidos e estudados. Época esta, também, aonde Timothy Leary, um psicólogo, propunha benefícios terapêuticos do LSD, por exemplo. Hoje se sabe que o LSD não é exatamente uma substância boa para a saúde.

Essa opinião coletiva de que certas drogas faziam bem mudou de lá para cá em razão do conhecimento que foi sendo criado acerca delas e das descobertas sobre seus malefícios físicos, mentais e sociais.

Pode-se até mesmo fazer um paralelo do consumo de drogas com o tabagismo: não muitos anos atrás, fumar era considerado glamouroso e elegante. Conforme foram sendo conhecidos os malefícios do cigarro e sua relação com o câncer de pulmão, cresceu a campanha anti-tabagismo e hoje os fumantes existem, provavelmente, em número muito menor do que cinquenta anos atrás.

Se perguntar para seu avô, não será incomum que ele diga que fumou seu primeiro cigarro ainda na infância. O mesmo aconteceu com Christiane F.:

"Tinha então oito anos. Meu maior desejo era crescer logo, ser adulta, adulta como meu pai. (...) No caminho de volta da escola para nossas casas remexíamos em todos os cinzeiros e latas de lixo para catar as guimbas de cigarro. Dávamos um jeito nelas e fumávamos."

As drogas eram algo relativamente novo então e ideia sobre elas era diferente da atual. Sendo assim, de certa forma, não é errado dizer que as drogas eram mais bem aceitas do que hoje em dia. Como vemos no livro, nas palavras da própria Christiane, quem se drogava era considerado "descolado". Dessa forma, não se poderia esperar retrato diferente do que o livro "Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída..." nos mostra, de toda uma geração desesperançosa e completamente arruinada pelo consumo de drogas.

sábado, 18 de agosto de 2012

Joachim-Gottschalk-Weg



Este é o edifício de número 10 do Gropiusstadt, na rua Joachim-Gottschalk-Weg, aonde Christiane morou no décimo primeiro andar com sua família, antes de seus pais se divorciarem.

"Ali nos instalamos em um apartamento de dois cômodos e meio, no décimo primeiro andar. O meio cômodo era o quarto das crianças. Todas as coisas bonitas de que minha mãe nos falara jamais caberiam ali."


Saiba mais sobre o Conjunto Gropius
A escola de Christiane F.


Se você sempre quis dar uma passeada pelos mesmo locais aonde Christiane F. esteve, divirta-se:


Exibir mapa ampliado

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Foto de Christiane F. criança

Na imagem a seguir, vemos uma Christiane F. (ao centro da foto, de casaco verde) ainda criança. Não se sabe ao certo quanto anos de idade ela tinha na data desta foto, mas, provavelmente, coincide com o período em que residia com a família no conjunto Gropius.


Este é um momento chave para a compreensão do que veio a suceder na vida de Chris e na de muitos jovens que, como ela, também se tornaram viciados. Como vimos no livro, foi grande o número de vítimas fatais da droga.

"Dos oitenta e quatro mortos vítimas de heroína no ano de 1977, não tínhamos o menor conhecimento de vinte e quatro desses viciados, e eles, com certeza, não morreram em conseqüência de uma primeira dose."

"Inconscientemente procurava sempre essas informações. Os artigos eram cada vez mais curtos, porque cada vez havia mais mortos encontrados com uma agulha plantada no braço."



Lendo Christiane F. em 2012

Hoje em dia, para leitores brasileiros, a história de Christiane F. choca muito mais do que deveria pelo momento e até mesmo pelo país em que vivemos. Para a época e país em que a história aconteceu, o que foi retratado no livro era até muito normal. Como podemos ver nos trechos do livro destacados acima, somente em 1977, em Berlim, 84 jovens foram vítimas fatais da heroína, dos quase 600 que morreram em toda Alemanha Ocidental. Se formos juntar a esta conta os jovens que usavam heroína e sobreviveram, como Christiane F., Detlef e Stella, imagina-se que o número de drogados era realmente muito alto.

A história nos choca tão profundamente porque vivemos no Brasil, um país aonde a heroína não é tão comum e as meninas de treze anos não são tão maduras quanto Christiane F. era. Estamos passando por um momento aonde a maioria das meninas de treze anos está na escola e na internet, nas redes sociais, escrevendo bobagens e sendo nada mais do que meninas de treze anos de idade. Nossos adolescentes são alienados e fúteis em um tipo de alienação e futilidade muito diferente da dos adolescentes alemães dos anos 70, portanto, há de se considerar as diferenças culturais entre Brasil e Alemanha.

Falemos de outra menina que disputa com Christiane F. o posto de jovem alemã mais famosa no mundo: Anne Frank. Anne, supostamente, escreveu um dos maiores best sellers de todos os tempos contando sua história de refugiada judia durante o período do Holocausto ("O diário de Anne Frank", Editora Record, 350 páginas) de forma muito inteligente e eloquente. Quem já tiver lido este livro, concordará que Anne Frank, com toda certeza, era muito mais madura e erudita do que sua idade sugeria. Apesar de terem nascido em épocas distintas e terem tido vidas diferentes, acredito que o mesmo amadurecimento precoce tenha ocorrido com Christiane F., talvez devido à cultura alemã, ao tipo de criação que as famílias dão a suas crianças ou à educação básica que as crianças recebem nas escolas alemãs. Nos anos 70, as drogas encontraram em Berlim jovens muito mais maduros do que os de hoje em dia e é inútil comparar Christiane F. e seus amigos às crianças que têm treze ou quatorze anos em 2012.

No Brasil de hoje não se encontra heroína em cada esquina, ao passo que em Berlim, a droga era vendida em qualquer lugar.

"Às vezes fornecedores passavam pelo pedaço com um bom sortimento. Bastava pedir qualquer coisa para voar e eles respondiam: 'O que você quer? Valium, Valeron, maconha, LSD, cocaína, heroína?'"

"Eu sabia que no Sound havia uma 'cena'. Ali se vendia de tudo, desde a maconha até a heroína, incluído o Mandrix e o Valium."

Sobre o Mandrix, o Valeron e o Valium, que são medicamentos de farmácia, a fiscalização no Brasil é muito intensa e não se pode comprar sem receita (é claro que existe um mercado negro, mas também não é fácil encontrar). Quanto à heroína, quando encontrada no Brasil, custa caro, muito caro. Para se ter uma ideia, cerca de dez anos atrás, no fim do governo FHC e com a alta do dólar, um grama no Brasil custava de R$250 a R$400. Essa informação foi publicada em uma edição n° 4 da Revista Jovem Pan, 2003, em uma reportagem sobre brasileiros viciados em heroína. Leia esta reportagem escaneada. Hoje não sei mais quanto custa, mas não deve ter barateado muito.


Como vivem os toxicômanos no Brasil
O Conjunto Gropius
O edifício aonde Christiane F. viveu
A escola de Christiane F.


De qualquer forma, a heroína é uma droga cara para a realidade latino americana e não é comum vermos casos de viciados em heroína no Brasil, mesmo entre ricos e artistas que poderiam pagar o preço alto desta droga, ao passo que, se olharmos para outros países, é bem fácil apontar diversos ídolos internacionais que fizeram uso dela: Kurt Cobain, Courtney Love, River Phoenix, Janis Joplin, Amy Winehouse, Pete Doherty, Nikki Sixx e mais recentemente, Macaulay Culkin, entre outros. Isso sem falar da quantidade de viciados anônimos que deve haver lá fora.

Mas por que isso acontece? Por que a heroína é tão cara no Brasil? Em breve falaremos da questão a distribuição desta droga para o continente americano.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Conjunto Gropius


A jornada de Christiane F. começa ainda em sua infância, aos seis anos de idade, quando ela se muda com sua família para o conjunto Gropius, o Gropiusstadt, localizado em Neukölln, Berlim.

"O conjunto Gropius abriga, em suas torres, quarenta e cinco mil pessoas. Entre os prédios, gramados e centros comerciais. De longe, tudo isso tem um ar de novo, tudo parece muito bem-cuidado, mas, quando se está dentro, entre os prédios, fede a xixi e a cocô. É por causa de todos os cachorros e crianças que vivem nesse conjunto. E no vão da escada, fede ainda mais."


O que é Gropius e por que o conjunto residencial se chama Gropiusstadt?


Gropiusstadt significa, literalmente traduzindo, "cidade Gropius" (stadt = cidade). Mas o que é Gropius?


Walter Gropius (Berlim, 18 de maio de 1883 — Boston, 5 de julho de 1969) foi um arquiteto alemão. É considerado um dos principais nomes da arquitetura do século XX, tendo sido fundador da Bauhaus, escola que foi um marco no design, arquitetura e arte moderna e diretor do curso de arquitetura da Universidade de Harvard. Gropius iniciou sua carreira na Alemanha, seu país natal, mas com a ascensão do nazismo na década de 1930, emigrou para os Estados Unidos e lá desenvolveu a maior parte de sua obra.

Fonte: Wikipedia


Walter Gropius foi o arquiteto responsável pelo projeto do conjunto Gropius. Ao lado, Walter Gropius fotografado por Louis Held. Na época, o conjunto era localizado próximo ao Muro de Berlim (hoje o muro não existe mais), em sua face ocidental (capitalista). Inicialmente, o projeto se chamava Britz-Buckow-Rudow, mas depois foi renomeado em homenagem ao arquiteto.


Dados do conjunto Gropius:

Área: 2.66 km²
Altura: 52 m
População: 35,844 (em junho de 2008)
Fundado em: 1960 (Christiane e sua família foram morar lá em 1968)
Site oficial: www.gropiusstadt.info (em alemão)
Site informativo sobre o Gropius: www.qm-gropiusstadt.de (em alemão)

sábado, 11 de agosto de 2012

Christiane F.

Aos 13 anos ela era junkie e prostituta. Passava suas tardes alternando entre fétidos banheiros públicos e o entorno da Estação Zoo (Bahnhof Zoologischer Garten) de Berlim, sempre às voltas com colheres e seringas. Aos 14, era fumante inveterada, capaz de acabar com um maço em duas ou três horas. Aos 15, em 1978, conheceu Horst Rieck, um jornalista que fazia uma pesquisa sobre os problemas da juventude alemã, que quis entrevistá-la. Este momento está descrito mais detalhadamente no post Christiane na Bahnhof Zoo.

Acusada de usar heroína desde os 13 anos e de se prostituir para manter o vício, ela estava depondo num tribunal de Berlim e aceitou conceder a entrevista. Rieck ficou tão impressionado que, junto com o também jornalista Kai Hermann, escreveu no mesmo ano um livro sobre a jovem, com o título original "Wir Kinder vom Banhof Zoo". Foi lançado no Brasil em 1982, como "Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída..."

O mundo percebeu então que o estereótipo de drogado marginal e violento pode falhar. Christiane Vera Felscherinow era uma menina frágil, bonita, tinha amigos, frequentava a escola e fazia lição de casa. Até se viciar em heroína e começar a se prostituir nas ruas de Berlim em troca de alguns marcos para sustentar o vício.

"Sem me dar conta, eu me dividi em duas. Duas pessoas absolutamente diferentes. Escrevia cartas a mim mesma. Mais precisamente Christiane escrevia para a Vera. Vera é o meu segundo nome. Christiane era a menina de 13 anos que queria ir à casa da avó, a menina comportada; Vera, a drogada."

Mais tarde, em 1981, o diretor Uli Edel viria a rodar um filme baseado na vida de Christiane F., o que marcou de vez seu nome na cultura pop, fazendo com que, mesmo passados mais de trinta anos, sua história não tenha sido esquecida.

Entre para o nosso bando e venha reviver esta viagem...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...